06.08 [18] – 73 anos depois da Bomba de Hiroshima

E mais uma vez já esquecida de que esse horror um dia aconteceu, fiz parte das pessoas que “em número cada vez maior, haviam se tornado complacentes (…) desde o término da constante e amedrontadora rivalidade nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética”. Tive e confesso, com vergonha, “uma espécie de amnésia (que) tinha começado a afetar a civilização, uma amnésia particularmente perigosa, na qual as pessoas começavam a esquecer o que as bombas atômicas realmente fazem”.

Uma pesquisa me fez lembrar de um livro (O Último Trem de Hiroshima), e agora eu compartilho com vocês: temos que ser lembrados disso ano a ano, porque…

Não deveríamos deixar a guerra acontecer nunca mais”.

─ Um sobrevivente,
Charlles Pellegrino in O Último Trem de Hiroshima

06.08 [11] – 66 anos depois da Bomba de Hiroshima

Li este ano um livro chamado O Último Trem de Hiroshima de Charles Pellegrino. E esse livro, me fez lembrar dessa data, para nunca mais esquecer.

Ano passado, infelizmente eu não postei nada, já esquecida de que esse horror um dia aconteceu. Fiz parte das pessoas que “em número cada vez maior, haviam se tornado complacentes (…) desde o término da constante e amedrontadora rivalidade nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética”. Tive e confesso, com vergonha, “uma espécie de amnésia (que) tinha começado a afetar a civilização, uma amnésia particularmente perigosa, na qual as pessoas começavam a esquecer o que as bombas atômicas realmente fazem”.

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

. Vinicius de Moraes in Rosa de Hiroshima .

O livro me fez lembrar, e agora eu compartilho com vocês: temos que ser lembrados disso ano a ano, porque…

Não deveríamos deixar a guerra acontecer nunca mais”.

─ Um sobrevivente,
Charlles Pellegrino in O Último Trem de Hiroshima

Vapor

Depois de um décimo de milésimo de segundo, o ar começou a absorver a explosão e a reagir. (…) Nesse momento, o clarão inicial já tinha percorrido um raio de trinta quilômetros. (…) Sob o hipocentro, o sangue no cérebro da senhora Aoyama já começava a vibrar, na iminência de virar vapor. O que ela experimentou foi uma das mortes mais rápidas de toda a história humana. Antes que algum nervo começasse a perceber a dor, ela e seus nervos deixaram de existir”.

. Charles Pellegrino in O Último Trem de Hiroshima .

DL 2011: O Último Trem de Hiroshima

TEMA: Livro-Reportagem
MÊS: Maio


Livro:
O Último Trem de Hiroshima
Autor(a): Charles Pellegrino
Editora:
Leya
Páginas: 432

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)


Não deveríamos deixar a guerra acontecer nunca mais”.

Nunca mais. Por motivo algum e em hipótese alguma. A leitura deste livro foi uma das mais difíceis pra mim até hoje. Sofri muito com os sobreviventes e suas histórias horripilantes daquele trágico 06 de agosto de 1945. Tive vergonha de, até então, ter feito parte das pessoas que “em número cada vez maior, haviam se tornado complacentes (…) desde o término da constante e amedrontadora rivalidade nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética”. Tive e confesso “uma espécie de amnésia (que) tinha começado a afetar a civilização, uma amnésia particularmente perigosa, na qual as pessoas começavam a esquecer o que as bombas atômicas realmente fazem”.

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Lição Inesquecível

Em um raio de dois quilômetros, uma professora chamada Arai recebeu uma lição inesquecível sobre os efeitos diferenciais de superfícies negras e brancas na absorção da luz. Quando veio o clarão, ela estava sozinha em sua classe, porque havia decidido dar mais alguns minutos para as crianças brincarem no pátio. Arai estava pendurando os melhores exemplos de caligrafia dos alunos em uma janela que dava para o hipocentro. Uma garotinha, executando sua delicada caligrafia em nanquim, tinha pintado o nome de sua professora em uma folha branca de papel-arroz. O clarão foi tão rápido que Arai pensou que uma bomba de quase quinhentos quilos tivesse caído bem ao lado da janela. Seguindo seu treinamento contra bombardeios aéreos, ela se agachou imediatamente para se proteger, esperando somente um ‘rápido desaparecimento’, advindo de uma bomba cheia de dinamite e cargas de fósforo lançada tão perto dela. Ficou perplexa, então, quando a luz diminuiu e o estrondo que esperava não veio pelo que pareceram vários longos segundos. Estava quase levantando a cabeça para dar uma olhada do lado de fora quando a janela explodiu para dentro da classe e milhares de pedaços de vidros voaram sobre suas costas, sem lhe causar dano.
Quando Arai se levantou novamente, ela observou uma grande nuvem vulcânica cheia de vaga-lumes que mudavam de cor: de dourado a violeta e depois para uma tonalidade brilhante de verde, mais deslumbrante que qualquer esmeralda que ela pudesse imaginar. Quando os vaga-lumas desapareceram e uma mosca pousou num corte em seu antebraço, ela tornou-se consciente de duas realidades: as crianças não estavam mais lá fora. Era como se alguma coisa as tivesse silenciosamente removido, deixando pilhas de trapos ardentes em seu lugar. Sua segunda constatação foi a de que seus braços, seu rosto, e tudo o mais que não tivesse sido protegido detrás dos papéis na janela pareciam muito queimados pelo sol.
Em sua mão,  Arai ainda tinha a folha de papel-arroz, mas esta havia se transformado dramaticamente. Os caracteres japoneses, em preto, tinham absorvido a luz, queimando instantaneamente e deseaparecido, enquanto o papel branco ao seu redor refletira a luz de volta para onde tinha vindo e sobrevivera mais ou menos intacto. Quando o raio de calor queimou as pinceladas, apenas uma fração do poder da bomba tinha sido usada e começava a desaparecer. Uma fina folha de papel tinha protegido os olhos da professora, salvando-a da cegueira, mas mesmo uma fração já definhante da fúria não consumida da bomba era significante. Sua luz ardeu através das letras que faltavam como um jato de tinta passadndo por um estêncil. A luz atingiu o rosto de Arai com a força equivalente a um banho de sol de quatro ou cinco dias de verão, marcando permanentemente na pele a caligrafia de uma criança morta. Tudo isso aconteceu antes que Arai pudesse começar a se agachar ─ em quatro décimos de segundo.

Charles Pellegrino in O Ultimo Trem de Hiroshima

Protegidos pela Cultura

Às 8h15 da manhã de 6 de agosto, Morimoto não estava muito mais longe da bomba que Akiko Takakura. Como Akiko, ele não se lembrava de nenhum som acompanhando o clarão. A mansão de vários andares, reforçada por telhas, tremeu e se achatou ao redor do senhor Morimoto e de seus dois primos; mas a combinação de telhas e três camadas de grossas vigas de madeira acima deles atenuou as explosões de raios gama para pelo menos um décimo. Os cômodos da mansão, cheios de estantes de livros do chão ao teto, atenuaram ainda mais os raios e absorveram as ondas de compressão. De certa forma, os três primos foram protegidos pela cultura”.

. Charles Pellegrino in O Último Trem de Hiroshima .