Feliz

“- O que é que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana.
– Repita a pergunta…?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
– Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
– Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? – repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a com surpresa.
– Que idéia! Acho que não sei o que você quer dizer, que idéia! Faça a mesma pergunta com outras palavras…
– Ser feliz é para se conseguir o quê?”.


. Clarice Lispector in Perto do Coração Selvagem .

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres

Dia 25 de julho se comemora o dia Nacional do Escritor. Esse dia foi escolhido pelo ex-ministro da Educação e Cultura Pedro Paulo Penido, em 1960, para homenagear escritoras e escritores brasileiros. A escolha dessa data deve-se à realização do I Festival do Escritor Brasileiro, patrocinado pela União Brasileira de Escritores (UBE), que ocorreu em 25 de julho de 1960.

Para comemorar essa data, escolhi um livro da minha escritora favorita, Clarice Lispector para a Dica de Leitura dessa semana. Essa autora nacional maravilhosa que escreveu ao Jornal do Brasil que “não se ‘faz’ uma frase. A frase nasce”, e que em resposta à pergunta “Por que você escreve” na única entrevista para a televisão que deu na vida, disse: “Por que você bebe água?”. Clarice era assim, nasceu pronta, já escritora e nos presenteou com livros que trazem reflexão e aprendizado, principalmente sobre nós mesmos. Nos faz questionar, põe o dedo na ferida e nos tira do lugar comum.

 “Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente”.

Este foi o primeiro romance de Clarice que eu li e confesso que amei logo de cara. A narrativa é simples e deliciosa e é impossível não se apaixonar pelas personagens tão extraordinariamente criadas por Clarice. A história vai te envolvendo aos poucos e você se vê totalmente cativado pelas dúvidas e questionamentos de Lóri, a personagem principal, que está perdida pois não entende direito o que é “ser”.

Ulisses, seu namorado e professor de Filosofia, tenta ajudá-la a entender esse mistério e como é agradável o prazer de simplesmente existir. Durante todo o desenrolar da história, ele a desafia para refletir sobre os acontecimentos, rotineiros ou não, de sua vida e a ajuda a descobrir quem ela é, o que gosta, quais são as atitudes que lhe dão prazer, o que a desagrada.

Clarice propõe a reflexão sobre diversos conflitos emocionais e usa de uma liberdade de escrita maravilhosa, afinal uma das características famosas desse livro é que ele começa com uma vírgula e termina com dois pontos.

E há tanto mais a dizer sobre esse livro, mas minhas próprias palavras não seriam suficientes, então escolhi um trecho da própria autora que falará por si só da qualidade narrativa e beleza indescritível deste livro:

“Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.

Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.

Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia”.

Leitura super recomendada!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
SERVIÇO
Blog: http://blogentreaspas.com
Instagram: @blog_entreaspas
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25.07 [20] ─ Dia Nacional do Escritor

Clarice 🌹📖

08.03 [20] Dia Internacional da Mulher

“Neste domingo de sol e de Júpiter estou sozinha em casa. Dobrei-me de repente em dois e para frente como em profunda dor de parto – e vi que a menina em mim morria. Nunca esquecerei este domingo sangrento. Para cicatrizar levará tempo. E eis-me aqui dura e silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim. Todas as vidas são vidas heróicas. A criação me escapa. E nem quero saber tanto. Basta-me que meu coração bata no peito”.

. Clarice Lispector in Água Viva . 

Acredito que todas nós tenha passado por isso. Clarice escreve pra nós, de nós e por isso separei essa citação desse livro lindo para homenagear a todas as mulheres heróicas de coração batendo no peito que conheço, em especial minha mãe, Elvira R. Souza ❤️

Resenha: A Via Crucis do Corpo

Livro: A Via Crucis do Corpo
Autor(a): Clarice Lispector
Editora:
Rocco
Páginas: 84

Nota: 5
(1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Clarice é Clarice…
… Mas esse livro foi diferente de todos os livros dela que já li, porque foi um livro como ela mesmo chamou no conto Explicação de “encomendado”. E ela estava se sentindo um tanto mal com isso. Nesse conto explicação ela diz que avisou ao editor que não escrevia por encomenda e nem por dinheiro e sim por impulso, mas que enquanto a ligação corria, ela já começava a imaginar as histórias. Mas que tinha vergonha do que escreveu e que queria lançar com pseudônimo, mas que o editor não deixou porque ela deveria ter liberdade de escrever o que quisesse. O que fica claro na explicação e em quase todos os contos do livro que são 14, é que ela não estava confortável, mas as histórias vieram!! São, como tudo que Clarice escreve, profundas, um pouco tristes, totalmente VIDA nossa de cada dia e que nos fazem refletir. Amo Clarice porque ela nos faz mergulhar no que não queremos encarar, mas precisamos!!

Algumas citações que destaquei da leitura:

“Que podia fazer? senão ser a vítima de mim mesma.”

“Se contasse, não acreditariam porque não acreditavam na realidade.”

“Porque é dever da gente viver. E viver pode ser bom. Acredite.”

“Às vezes me dá enjoo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta.”

Todos os contos são sobre sexualidade, algo que ela escreve com naturalidade, mas com pudor. É perceptível o desconforto em alguns momentos e ela inclusive pede desculpas às vezes por certos detalhes cruéis, segundo ela. Pede desculpas não a nós leitores, mas aos personagens por “ter que escrever isso”!!

Clarice sempre se utiliza dessas conversas em seus livros, com ela mesma, com o leitor, com os personagens, com Deus. E esse pra mim é o charme de sua literatura tão forte, que traz e aproxima a autora de nos, que mostra suas fraquezas, seus desconfortos, suas inseguranças e faz dela gente como a gente em situações que já vivemos ou ainda viremos a viver!!

Recomendo a leitura!!

A MULHER por Clarice Lispector

Mestra dos detalhes, a autora é uma das mais replicadas na rede. Entenda por que as frases de Clarice se tornaram fenômeno pop!

Clarice Lispector (1920-1977). Principais obras: A Hora da Estrela (1977) e A Paixão segundo G.H. (1964). Modernismo
Clarice Lispector (1920-1977).

“Eu era uma mulher casada. Agora sou uma mulher.”

Essa única frase resume a essência do conto “A Fuga”, de Clarice Lispector, no qual uma mulher sai de casa e, ao passar algumas horas sozinha numa praça, decide se separar do marido. Essa capacidade de fazer em poucas palavras sínteses de situações humanas complexas se tornou um prato cheio para internautas.

Os sites de mensagens inspiradoras e as redes sociais espalham e compartilham dezenas de frases atribuídas à escritora, geralmente acompanhadas de fotos e músicas românticas. Nem sempre, no entanto, as frases foram de fato retiradas dos livros, das entrevistas ou das colunas femininas que Clarice escrevia para jornais, nos quais assinava com pseudônimos, como Tereza Quadros e Helen Palmer.

Apesar de nem tudo que a gente recebe nas nossas caixas de email ou nos feeds de redes sociais ter sido de fato assinado por ela, Clarice Lispector é um sucesso nas redes. Sua fanpage no Facebook, por exemplo, tem mais de 160 mil seguidores! (Só para dar uma ideia, a do cantor Roberto Carlos tem cerca de 16 mil)

“As pessoas gostam de máximas e Clarice tinha mesmo essas frases sentenciosas. ‘ A descoberta do mundo’ é cheio delas ”, diz Yudith Rosembaum, professora de literatura brasileira na Universidade de São Paulo e autora, entre outros, do perfil “ Metamorfoses do Mal – uma leitura de Clarice Lispector ” (Edusp).

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Resenha: A Paixão Segundo G.H.

Livro: A Paixão Segundo G.H.
Autor(a): Clarice Lispector 
Editora:
 Rocco
Páginas: 180

Nota: 5
(1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Esse livro sou eu!
“Em uma outra vida que tive, aos 15 anos, entrei numa livraria, que me pareceu o mundo que gostaria de morar. De repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu!”.

Clarice estava se referindo a Katherine Mansfield, nascida na Nova Zelândia, filha de pais ingleses e que abandonou o clima agradável, a vida abastada na bela ilha para entregar-se com paixão a seu intuito de tornar-se escritora. Mas eu, ao postar essa citação, me refiro a própria Clarice Lispector. Quando abri A Paixão Segundo G.H. e comecei a ler, aconteceu-me o mesmo. “Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu!”.

A Paixão Segundo G.H. é um mergulho no interior do narrador-personagem, e um mergulho no nosso interior porque é impossível não ir se questionando junto com os questionamentos da personagem, é impossível não participar da viagem reflexiva que a personagem faz. Não há propriamente uma história neste livro. G.H. busca, pela introspecção, descobrir sua identidade e as razões de viver, sentir e amar e leva involuntarimante você junto:

Continuar lendo “Resenha: A Paixão Segundo G.H.”

10.12 – 98º Aniversário de Clarice

“Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente”.

. Clarice Lispector in Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres .

O Ser Gritante

By Oswaldo Guayasamin

“Mas se eu gritasse uma só vez que fosse, talvez nunca mais pudesse parar. Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Se eu der o grito de alarme de estar viva, em mudez e dureza me arrastarão pois arrastam os que saem para fora do mundo possível, o ser excepcional é arrastado, o ser gritante”.

Clarice Lispector in A Paixão Segundo G. H. .

Das Vantagens de ser Bobo

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoiévski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor.

E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector
in Clarice na Cabeceira: Crônicas