10.12 – Centenário CLARICE LISPECTOR

Eu poderia tentar escrever algo sobre essa mulher que tanto admiro, mas minhas palavras jamais fariam juz a tudo que ela representa, então escolhi as próprias palavras dela para essa singela homenagem, que com certeza, exprimem quem ela era muito melhor do que eu jamais faria…

“Um nome para o que sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser. O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis.Porque foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de “a protetora dos animais”. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. E eu sentia o drama social com tanta intensidade que vivia de coração perplexo diante das grandes injustiças a que são submetidas as chamadas classes menos privilegiadas. Em Recife eu ia visitar aos domingos  a casa de nossa empregada em mocambos. E o que eu via me fazia prometer que não deixaria aquilo continuar. Eu queria agir. Em Recife onde morei até os 12 anos de idade, havia muitas vezes nas ruas  um aglomerado de pessoas diante das quais alguém discursava  ardorosamente sobre a tragédia social. E lembro-me de como eu vibrava e de como eu me prometia que  um dia  esta seria minha tarefa: a de defender os direitos dos outros. No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura profundamente o que sente e usa a palavra que o exprima. É pouco, é muito pouco”.

#ClariceLispector 💭📝
➡️”Aprendendi a viver”, @editorarocco, 2004

#blogentreaspas#leiamulheres#mulheresnaliteratura 🌹

Sorriso

“Que é isso? queria dizer-se amigável, bater com delicadeza na própria face e resolver-se num sorriso”.

. Clarice Lispector in O Lustre .

Amor

“O amor não é tudo que resulta em filhos”.

. Clarice Lispector in O Lustre .

Quarto vazio

“Descobriu que não possuía bom-senso, que não estava armada de nenhum passado e de nenhum acontecimento que lhe servisse de começo, ela que nunca fora prática e sempre vivera improvisando sem um fim. Nada do que lhe sucedera até então e mesmo nenhum pensamento anterior comprometiam-na para um futuro, sua liberdade crescia a cada instante, pensativa, ar frio invadindo e varrendo um quarto vazio”.

. Clarice Lispector in O Lustre .

Seu valor

“Ela roubaria de cada olhar seu valor para si mesma e bonito seria aquilo de que seu corpo tivesse sede e fome; ela tomara um partido”.

. Clarice Lispector in O Lustre .

Atravessava o dia

“Esses eram momentos, em que ela sofria mas amava o seu sofrimento. Atravessava o dia, a necessidade de cumprir os pequenos deveres, a arrumação dos quartos, a espera, a realidade e as ruas”.

. Clarice Lispector in O Lustre .

Lá estava ela

“Não havia quem a salvasse ou a perdesse. E eis que os momentos se desenrolavam e morriam enquanto seu rosto quieto e mudo pairava à espera. Lá estava ela pois. Ainda ontem o prazer de rir fizera-a rir. E à sua frente se estendia todo o futuro”.

. Clarice Lispector in O Lustre .

Ridículas

“As pessoas eram tão ridículas!, tinha ela vontade de chorar de alegria e de vergonha de viver”.

. Clarice Lispector in O Lustre .

Resenha: O Lustre

Livro: O Lustre
Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 271
Nota: 3
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Pela primeira vez, a leitura de Clarice foi bastante desafiante pra mim. Talvez por não me sentir ligada à personagem principal, Virgínia, que me deixou bastante irritada em muitos momentos com sua passividade inicial e seus desmaios. Ao longo da história isso vai mudando e consegui uma fluidez maior na leitura, mas ainda assim não senti nem de longe o que costumo sentir ao ler os livros dessa autora maravilhosa que é a minha favorita da vida!

Esse romance foi escrito em 1946, logo após o lançamento de Perto do Coração Selvagem, que foi um sucesso absoluto. O Lustre não trouxe tantas críticas positivas como Clarice esperava e até questionou os amigos do porque não estava recebendo nenhuma devolutiva do livro, como recebeu do anterior. Alguns críticos julgam ele muito parecido com o primeiro que até então revolucionou e modernizou a forma de escrever, mas eu, particularmente não vi tamanha semelhança.

Clarice tem sim um jeito diferente de escrever, como um fluxo de consciência que acontece tão rápido como o nosso pensamento e as vezes nos deixa perdidos na cronologia da história (o que nem de longe impede a experiência literária, ao meu ver. Pelo contrário, a enriquece!), mas as histórias são bem diferentes e me identifiquei muito mais com Joana do que com Virgínia, que demorou demais pra encontrar a própria força e ainda assim demonstrava certa apatia e passividade em relação a alguns personagens e situações.

O lustre conta a história de Virgínia desde a sua infância em Granja Quieta até a vida solitária na cidade. O título remete ao Lustre da casa paterna no interior que a atraía e assustava quando pequena.

“Havia o lustre. A grande aranha escandecia. Olhava-o imóvel, inquieta, parecia pressentir uma vida terrível. Aquela existência de gelo”.

Pode-se fazer uma associação à vida que Virgínia viria a ter: terrível, isolada e sem afetos. Na infância, Virgínia nutre um amor e admiração sem limites pelo irmão com quem vive os dias em Granja Quieta. São muito unidos, porém Daniel, é perverso e cria uma “Sociedade das Sombras” que só tem os dois como membros e se utiliza do poder dessa sociedade para subjugar Virgínia as mais inoportunas situações, as quais ela obedece sem pestanejar.

Embora possa parecer desumano, não consegui nutrir uma compaixão pela protagonista, pois vamos descobrindo que a passividade não tem nenhuma ligação com bondade e que Virgínia também traz traços de maldade em si e por isso essa ligação doentia que se fez entre os dois. Quando crescem, se separam e Virgínia vai viver na cidade, e até se torna um pouco mais ativa, porém não se liberta das lembranças do passado que a atormentam a cada passo e acaba criando relações negativas com as pessoas e aumentando sua solidão. Muito me pareceu que a relação doentia criada com o irmão na infância fora o derradeiro de sua existência, mantendo-a sempre presa às lembranças.

Me parece impossível trazer uma impressão definitiva do que seja esse romance, tamanhas são as metáforas e a inconstância dessa obra. Ela abre diversas possibilidades de interpretação e acredito que atinja a cada um de uma forma diferente, de acordo com suas bagagens e experiências. Me foi MUITO difícil dar menos de 5 estrelas para Clarice, pois sou muito fã de sua genialidade de escrita e de suas obras, mas não podia deixar de ser sincera, como o sempre faço em todas as minhas resenhas, e infelizmente essa obra em específico, não me atingiu como todas as demais que li da autora.

Ainda assim, recomendo a leitura a todos aqueles que são fãs, para conhecerem todas as suas vertentes. Aos iniciantes, indicaria outras obras dela, como Uma Aprendizagem e o Livro dos Prazeres, Felicidade Clandestina e A descoberta do Mundo!

Feliz

“- O que é que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana.
– Repita a pergunta…?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
– Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
– Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? – repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a com surpresa.
– Que idéia! Acho que não sei o que você quer dizer, que idéia! Faça a mesma pergunta com outras palavras…
– Ser feliz é para se conseguir o quê?”.


. Clarice Lispector in Perto do Coração Selvagem .