Fragmento 225

Tantas vezes, tantas, como agora, me tem pesado sentir que sinto – sentir como angústia só por ser sentir, a inquietação de estar aqui, a saudade de outra coisa que se não conheceu, o poente de todas as emoções… Ah, quem me salvará de existir? Não é a morte que quero, nem a vida: é aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia…”

. Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego .

Fragmento 337

O que tenho sobretudo é cansaço, e aquele desassossego que é gemeo do cansaço quando este não tem outra razão de ser senão o estar sendo. Tenho um receio íntimo dos gestos a esboçar, uma timidez intelectual das palavras a dizer. Tudo me parece antecipadamente fruste.
O insuportável tédio de todas estas caras, alvares de inteligência ou de falta dela, grotescas até à náusea de felizes ou infelizes, horrorosas porque existem, maré separada de coisas vivas que me são alheias…”

. Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego .

Fragmento 299

Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não. Para criar, destruí-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou a cena nua onde passam vários actores representando várias peças”

. Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego .

Fragmento 224

… esse episódio da imaginação a que chamamos realidade”

. Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego .

Fragmento 310

Todo esforço é um crime porque todo o gesto é um sonho morto”

Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego .

Fragmento 154

Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha.

O meu coração esvaia-se sem querer, como um balde roto. Pensar? Sentir? Como tudo cansa se é uma coisa definida!”

. Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego .

Fragmento 233

… a tristeza solene que habita em todas as coisas grandes ─ nos píncaros como nas grandes vidas, nas noites profundas como nos poemas eternos”

. Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego .

Fragmento 135

Dormir! Adormecer! Sossegar! Ser uma consciência abstracta de respirar sossegadamente, sem mundo, sem astros, sem alma ─ mar morto de emoção reflectindo uma ausência de estrelas!”

. Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego .

Fragmento 100

Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje – tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto”

. Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego .

Fragmento 136

O peso de sentir! O peso de ter que sentir!”

. Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego .