Complicado

 Complicado o negócio de ser feliz. Desisti, portanto, de minha felicidade para deixar os outros felizes. Abri mão das coisas. […] Eu não pensava em minha felicidade. Nem que a tinha escondido para nunca mais rever. Já não me lembrava onde estava: atrás de que livro? Que autor? Qual estante?”

. Fabricio Carpinejar in Uma Fábula Infantil para Adultos .

Amar com coragem, só isso.

Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente, trocar os talheres de um momento para outro. Qualquer coisa é admitida, menos que não ame com coragem.
Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo, de gosto, de opinião. Não se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente. Amar para valer, para dar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como “estou confuso”. Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Não desmarcar um amor pela amizade. Não esquecer de comentar pelo receio de ser incompreendido. Não esquecer de repetir pela ânsia da claridade. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar atrasado, com a respiração antecipando o beijo. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Amar decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio. 
(…) Amar com coragem, só isso.

Fabrício Carpinejar

QUALQUER COISA (Pequena história de amor)

Ele vai dormir no sofá.
Não porque brigou com ela, não porque se afastou, não porque estão ressentidos.
Não houve desentendimento, princípio de discussão, mentira naquela noite.
Ele vai dormir no sofá por escolha.
Por decisão.
Vai dormir no sofá porque ela não estará em casa.
Quando ela viaja, ele pega seu travesseiro, sua coberta e deita na sala. Liga a tevê e se distrai da solidão.
Tudo o que servia em sua época de solteiro agora o aborrece. Não partirá para festa, beber com amigos ou jogar futebol.
Antes bastava a namorada sair e ele se via livre, louco para rua.
Hoje a mulher sai e ele se vê abandonado.
Liga o som e faz-de-conta que ela está tomando banho.
Como um cachorro, fica mais perto da porta. Como uma criança, fica mais perto da janela.
Não suporta a cama de casal. Não agüenta girar o corpo sem encontrá-la.
Pega um vestido dela no cabide, ameaça cheirar e recua. Conclui que isso já é doença. Mas cheira. Cheira com a vaidade da doença.
Por alguns momentos, tenta imaginar como dormia sozinho na adolescência. Pressiona os olhos com a contundência dos ouvidos. Fracassa. Depois de viver, imaginar é mais difícil.
Ele depende do corpo dela para ler de noite. A luz do abajur é muito fraca, mortiça.
Pisa no quarto para buscar as roupas. O quarto é uma despensa durante os dias da ausência.
Ele acampa em seu apartamento. Muda os hábitos, come qualquer coisa, bebe qualquer coisa, telefona qualquer coisa, trabalha qualquer coisa.
Qualquer coisa é sua vida nas próximas horas.
Ele acreditava que a conhecia. Isso quando a pediu em casamento.
Ele só não esperava não se conhecer depois dela.
Casou com ela com toda a clareza.
E casou consigo no escuro.
Tudo o que conheceu dela desconheceu de si.
Liberou memória na personalidade.
Percebeu que os limites não são os mesmos. Os limites trocam de idéia.
Sua mulher tem limites diferentes hoje de ontem de amanhã.
Não se repetem.
O limite do cansaço. O limite da voz. O limite da brincadeira. O limite da provocação. O limite da paciência. O limite da conversa. O limite dos filhos. O limite do prazer. O limite da educação. O limite do trabalho. O limite do silêncio. O limite do amor.
Assim que ele aprende os limites dela, ela muda os limites.
Não é gozação. Ela não age por mal.
Foi ele que a ajudou a superar os limites.

Fabricio Carpinejar

Literatura 2.0

Por Fabricio Carpinejar

Até José Saramago abriu um blog. Até o Prêmio Nobel de Literatura. O celebrado escritor, que completa 86 anos em novembro, intensifica sua aproximação com o público. Caiu a última trincheira de resistência contra a ferramenta. O autor de Ensaio sobre a cegueira e O evangelho segundo Jesus Cristo decidiu criar “um espaço para comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, o que vier a talhe de foice”.

Se antes os blogueiros tomaram as estantes e livrarias, numa invasão organizada dos posts para as páginas, os escritores descobriram que estavam perdendo espaço e procuraram recuperar o tempo perdido. Sucedendo o movimento da rede aos livros, a trajetória agora é dos livros para a rede.

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Você me pediu um cigarro

Você foi covarde. Seu amor é forte, seu corpo é fraco. Você foi covarde como tantas vezes fui por acreditar que a coragem viria depois. A coragem não vem depois. A coragem vem antes ou não vem. Não posso amaldiçoar sua covardia. Sua boca não é rápida como suas pernas para me agarrar. Minhas pernas não são tão rápidas quanto minha boca para lhe impedir. Você foi covarde. Pela gentileza de sempre dizer sim, repetidos sim, quando não estava ouvindo. Já desfrutei de sua covardia, ríspido recusá-la agora porque não me favorece. Porque não fui escolhido. Não aquecerei seu prato para servi-la. Não a ajudarei no parto. Não partirei. Serei aquele que deveria ter sido, enterrado sem morrer, o que desapareceu permanecendo perto. Sou seu constrangimento mais alegre. Sua ferida, seu feriado. Com o tempo, serei sua vontade de se calar. De se retirar da sala. Não conhecerá meus hábitos de puxar o café antes de ficar pronto. De abrir as venezianas como quem procura reunir os chinelos ao vento. Você foi covarde, ninguém iria compreendê-la. Hoje todos a compreendem, menos você mesma. Você não se compreende depois disso. O que é imenso é estreito. O que é infinito fecha. Até o oceano tem becos e ruas sem saída. Até o oceano. Sua esperança não diminui a covardia. Quer um conselho? Finge que a dor que sente é a minha para entreter sua dor. Saudades ficam violentas quando mudamos de endereço. Saudades ficam insuportáveis quando mudamos de sentido.
Você confunde sacrifício com covardia. Compreendo. Eu confundo amor com loucura. Cada um tem seus motivos, sua maneira de se convencer que fez o melhor, fez o que podia. Você me avisou que não tinha escolha. Nunca teria escolha. Você foi educada com a vida, pediu licença, agradeceu os presentes. Confiou que a vida logo a entenderia. E cederia. Engoliu uma palavra para dormir. Não serei vizinho de seu sobrenome. Seus nomes esperam um único nome que ficou para trás. Você não desencarnou, não se encarnou, deixou sua carne parada nas leituras. Morrer é continuar o que não foi vivido. Vai me continuar sem saber. Você foi covarde. Com sua ternura pálida, seu medo de tudo, sua polidez em cumprir as promessas. Você não aprendeu a mentir. Tampouco aprendeu a dizer a verdade. O dia está escuro e não soprarei a luz ao seu lado. O dia está lento e não haverá movimento nas ruas. Você não revidou nenhuma das agressões, não revidará mais essa. Você foi covarde. A mais bela covardia de minha vida. A mais comovida. A mais sincera. A mais dolorida. O que me atormenta é que sou capaz de amar sua covardia. Foi o que restou de você em mim.

Fabricio Carpinejar

Um amor por escrito

Todos os livros são – na verdade – cartas secretas ao leitor, roteiros surpreendentes e tensos de emoção. O escritor procura convencer quem vai lê-lo, provar que ele ou sua personagem é real e inadiável”

. Fabricio Carpinejar .

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Carpinejar: o universo da perfomance

Não me deixe viver
o que eu posso,
que me seja permitido
desaprender os limites

. Fabrício Carpinejar .

Está na seção Perfil da Revista Florense n.º 15 (Primavera/2007). Muito interessante, e eu adoraria ter linkado aqui, mas o site da revista está com problemas. Então deixo aqui uma parte interessante:

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