Inteligentes demais…

“O ato essencial da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas dos produtos do trabalho humano. A guerra é uma forma de despedaçar, de projetar para a estratosfera ou de afundar nas profundezas do mar materiais que, não fosse isso, poderiam ser usados para conferir conforto excessivo às massas e, em consequência, a longo prazo, torná-las inteligentes demais”.

. George Orwell in 1994 .

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Por fim, até a data do ano se tornara incerta…

Dia a dia e quase minuto a minuto o passado era atualizado. Desta forma, era possível demonstrar, com prova documental, a correção de todas as profecias do Partido; jamais continuava no arquivo uma notícia, artigo ou opinião que entrasse em conflito com as necessidades do momento. Toda a história era um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário. Em nenhum caso seria possível, uma vez feita a operação, provar qualquer fraude. A maior seção do Departamento de Registro, muito maior do que a de Winston consistia simplesmente de gente que tinha por obrigação procurar e separar todos os exemplares de livros, jornais e outros documentos superados e por isso destinado à eliminação. Continuava no arquivo, cm a data original, uma porção de Times que talvez, por causa de modificações do alinhamento político, ou profecias erradas do Grande Irmão, haviam sido alterados uma dúzia de vezes, e não havia outros exemplares que pudessem contradizê-lo. Os livros também eram recolhidos e reescritos uma porção de vezes, e invariavelmente entregues aos leitores sem admissão alguma da troca. Nem mesmo as instruções escritas que Winston recebia, e das quais invariavelmente se desfazia assim que as cumpria, ordenavam ou insinuavam qualquer ato de falsificação: a referência era sempre a erros, enganos, equívocos, más interpretações que precisavam ser corrigidos, no interesse da exatidão.
Na verdade, porém (ele filosofou, enquanto reajustava as cifras do Ministério da Fartura), não chegava a ser falsificação. Era apenas a substituição de uma sndice por outra. A maior parte do material tratado não tinha relação alguma com coisas reais, nem mesmo o tipo da ligação que se contem numa mentira declarada. As estatísticas eram tão fantásticas na versão original quanto na retificada. Com efeito, era função do pessoal inventar estatísticas, tirando-as da própria cabeça. Por exemplo, o cálculo do Ministério da Fartura, prevendo a produção trimestral de botinas num total de cento e quarenta e cinco milhões de pares. A produção real, dizia-se, fora de sessenta e dois milhões. Todavia Winston, ao reescrever a previsão, reduzira a cifra a apenas cinqüenta e sete milhões, de modo a poder protestar, como de hábito, que a cota fora superada. Em qualquer caso, os sessenta e dois milhões estavam tão perto da verdade quanto cinqüenta e sete, ou cento e quarenta e cinco. Com toda probabilidade, não haviam fabricado botina alguma. Ou, mais certo ainda, ninguém tinha a menor idéia de quantos calçados tinham sido produzidos; nem ninguém se importava. Tudo o que se sabia é que, em cada trimestre, quantidades astronômicas de botinas eram produzidas no papel, ao passo que talvez metade da população da Oceania andava descalça. E assim era com todos os fatos registrados, pequenos ou grandes. Tudo se fundia e confundia num mundo de sombras no qual, por fim, até a data do ano se tornara incerta.

George Orwell in 1984

Alguma mentira para ser denunciada

O meu ponto de partida é sempre um sentimento de partilha, uma noção de injustiça. Quando me sento para escrever um livro, não digo para mim “vou produzir uma obra de arte’. Escrevo porque existe alguma mentira para ser denunciada, algum fato para o qual quero chamar atenção, e acredito sempre que vou encontrar quem me ouça. Mas não seria capaz de escrever um livro ou um longo artio de revista se não existisse nisso também uma experiência estética.

George Orwell
4ª capa de 1984