Mundo Seguro

─ Você ─ ele disse, e a voz mais parecia um susssuro contido. ─ Você é que é consumida por baboseiras.
Aquela subita ferocidade me assustou. Eu me afastei.
─ Você ─ ele prosseguiu, agarrando meu punho. ─ Todos vocês, do mundo seguro, com seus
air bags, e suas embalagens hermeticamente fechadas e suas dietas livres de gordura. Vocês é que são os supersticiosos. Vocês se convencem de que podem tapear a morte, e se sentem absolutamente ofendidos quando descobrem que não podem. Vocês ficam sentados em seus apartamentos confortáveis e assistem à guerra, e nos vêem sangrando, pela televisão. E pensam: “Que horror!”, e depois se levantam e tomam outra xícara de café expresso.
Estremeci quando ele disse aquilo. {…}
─ Coisas ruins acontecem. Algumas coisas muito ruins aconteceram comigo. E eu não sou diferente de mil outros pais nesta cidade cujos filhos sofrem. Eu convivo com isso. Nem toda história tem um final feliz. Cresça, Hanna, e aceite isso

. Geraldine Brooksin As Memórias do Livro .

Aquilo que nos une

O livro estava aqui para nos testar, para ver se alguém aqui perceberia que aquilo que nos une é muito maior do que qualquer coisa que nos divida. Que ser humano é muito mais importante do que ser judeu ou muçulmano, católico ou ortodoxo”

. Geraldine Brooks in As Memórias do Livro .

Rainha Inconquistada

A esposa do emir estava em pé, de costas para mim. Era uma mulher alta, e trajava um vestido bordado que caía pesadamente dos ombros e se estendia até o piso debaixo de seus pés. Seus cabelos, ainda um pouco úmidos, escorriam soltos pelas costas. As cores eram notáveis, pois havia muitas: dourado pálido, entrelaçado com âmbar reluzente, caloroso, iluminado por baixo com fios tão vermelhos quanto repentinas línguas de fogo. Apesar do meu nervosismo, eu já começava a pensar em como pintar aquilo. Então, ela se virou, e a expressão em seu rosto afastou todo aquele pensamento de minha mente.
Seus olhos também eram de uma cor notável: dourado escuro, como mel. Ela tinha chorado, como demonstravam o vermelhidão em volta dos olhos e o tom mosqueado irregular daquela pele branca. Não chovara agora, contudo. Seu olhar não era de tristeza, mas de raiva. Ela se mantinha rígida, como se fosse sustentada por uma haste de ferro. Apesar disso, ou talvez por causa do esforço que lhe custava aquela postura real, seu corpo balançava, agitado por um tremor que mal era discernível.
─ Você tem suas ordens. Comece o trabalho ─ disse.
─ Mas talvez a senhora prefira se sentar, ya emira? Porque vai levar algum tempo…
─ Ficarei em pé! ─ ela disse, e os olhos pareciam reluzir, úmidos.
Ela ficou em pé aquela tarde inteira, interminável. Minhas mãos tremiam sob aquele olhar feroz, magoado, enquanto eu abria minha caixa e arrumava os materiais. {…} Trabalhei sem fazer uma única pausa, e ela não se moveu nem desviou os olhos.
{…}
Depois de fazer minhas orações atrasadas, e de comer e beber alguma coisa, eu vislumbrei mais uma vez o pergaminho, com novos olhos e nova maneira de interpretá-lo. Então, vi claramente o que ela tinha feito. Ficara de pé para mostrar que não se abatia mesmo ante quaisquer atos insanos de violação por parte do emir. A imagem que ele levaria consigo era de uma rainha inconquistada, uma rocha que ele não podia quebrar. E percebi outra coisa, enquanto estudava o retrato. Não havia nele o menor indício das lágrimas nem do tremor que revelavam sua luta por trás daquela exibição de força. Eu sabia que ela não queria demonstrar aquilo, e nessa ocultação eu havia me tornado sua cúmplice.

Geraldine Brooks in As Memórias do Livro

Tamanha dor

Por quatro dias, o estado de Renato se alternava entre consciência e inconsciência. Ele acordou com o rosto rente ao piso de pedra, forrado de palha molhada de urina e fezes de rato. Ao tossir, expeliu coágulos de sangue, mas também longos fios de tecido limpo, que se desfaziam em seus dedos. Parecia que suas entranhas estavam se liquefazendo, como se seu corpo se desmanchasse de dentro pra fora. Ele estava com sede, mas a princípio não alcançava o pote co água. Depois, quando conseguiu agarrá-lo com as mãos trêmulas e despejar um pouco na boca, a dor de engolir o fez desmaiar de novo. Em seus sonhos, ele estava novamente amarrado na escada inclinada, a água jorrando em sua boca, e ele engolia sem querer, o que forçava o estreito pedaço de linho cada vez mais fundo em suas entranhas. Renato não sabia que tamanha dor era possível. Em silêncio, pois era impossível falar, ele rezava, pedindo pra morrer. Mas suas preces não foram atendidas, pois, quando acordou, ainda estava deitado lá, vendo os olhos vermelhos dos ratos fitando-o no escuro. No quinto dia, ele ficou mais acordado que inconsciente; e, no sexto, conseguia se arrastar para uma posição sentada, recostando-se na parede. Só o que tinha a fazer agora era esperar, e se lembrar.
Depois do quinto dia de água, quando o pano já estava bem no fundo de sua garganta, o Inquisidor tinha voltado ao lugar de relaxamento. Eles haviam estendido a escada, enquanto ele engasgava e se contorcia de dor. E então Renato viu, por fim, a evidência contra ele, e sabia finalmente o que teria que confessar. Entre dois dedos, o padre segurava uma longa tira de couro marrom, uma pequena caixa quadradada. Dentro da caixa estava a palavra de Deus, inscrita na letra impecável de seu pai.
─ Vocês, falsos convertidos, são um veneno, corroendo o coração da igreja. ─ o padre disse. ─ Rezam suas orações imundas em segredo, e, depois, poluem nossa igreja com sua presença mentirosa entre nós.
Renato não podia responder, fosse para confessar ou repudiar as acusações. Falar com um tecido enfiado até a garganta não era possível. O padre permaneceu lá enquanto eles revertiam a escada, jogavam mais água e, por fim, com uma força súbita, chocante, puxavam o pano, que havia penetrado em seu abdômen. Renato sentiu como se todas as entranhas estivessem sendo arrancadas garganta acima. Ele desmaiou e, quando acordou, estava sozinho na cela.

Geraldine Brooks in As Memórias do Livro


Renato
(del Salvador) não sabia que tamanha dor era possível.
Eu me pergunto que tamanha maldade é possível?
Renato (Russo) me responde que nem os santos têm ao certo a medida da maldade…

Esconder um livro

─ Para onde o levará? – perguntou Stela.
─ Não tenho certeza. O melhor lugar para esconder o livro deve ser uma biblioteca”

. Geraldine Brooks in As memórias do Livro .

Nada poderia ser mais verdadeiro que isso. Para quem já teve o privilégio de trabalhar em uma biblioteca (sim, na minha concepção e acho que sou suspeita, é o melhor trabalho do mundo!) sabe que realmente o melhor lugar para se esconder um livro é numa biblioteca. Sim, porque basta tirar um exemplar do lugar na estante dar dois passos para o lado e colocá-lo no meio de outros exemplares com classificação diferente e pronto. No mínimo 3 longos anos até que alguém o ache novamente, se achar. No caso de bibliotecas menores é um pouco mais fácil e talvez o esconderijo dure menos devido ao inventário que é feito anualmente e que consiste, de forma bem básica, em correr todas as estantes vendo se a classificação está correta e se todos os livros estão realmente lá. Mas em casos de bibliotecas gigantescas com mais de 100 mil exemplares, encontrar esse livro é praticamente impossível. Por essa razão é que a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é fechada ao público. Sim, quem quiser algum livro de lá precisa fazer um pedido por escrito e um bibliotecário vai em busca do livro e entrega ao usuário. Por que já imaginou perder uma obra entre quase 1 milhão de outros exemplares? O.o

Nem toda história tem um final feliz

─ Você ─ ele disse, e a voz mais parecia um susssuro contido. ─ Você é que é consumida por baboseiras.
Aquela subita ferocidade me assustou. Eu me afastei.
─ Você ─ ele prosseguiu, agarrando meu punho. ─ Todos vocês, do mundo seguro, com seus
air bags, e suas embalagens hermeticamente fechadas e suas dietas livres de gordura. Vocês é que são os supersticiosos. Vocês se convencem de que podem tapear a morte, e se sentem absolutamente ofendidos quando descobrem que não podem. Vocês ficam sentados em seus apartamentos confortáveis e assistem à guerra, e nos vêem sangrando, pela televisão. E pensam: “Que horror!”, e depois se levantam e tomam outra xícara de café expresso.
Estremeci quando ele disse aquilo. {…}
─ Coisas ruins acontecem. Algumas coisas muito ruins aconteceram comigo. E eu não sou diferente de mil outros pais nesta cidade cujos filhos sofrem. Eu convivo com isso. Nem toda história tem um final feliz. Cresça, Hanna, e aceite isso

. Geraldine Brooks in As Memórias do Livro .

Umas coisas antigas

─ Sim, é isso. Nós chamavamos os inimigos de “cascos” ─ uma coisa do estábulo. Temia que, se eles entrassem no museu, pisoteariam tudo, procurando ouro, e destruiriam coisas cujo valor eram ignorantes demais para sequer imaginar. Fui à delegacia. A maior parte da polícia tinha saído para defender a cidade da melhor maneira possível. O oficial de plantão perguntou: “Quem vai arriscar a cabeça só pra salvar umas coisas antigas?“. Mas quando percebeu que eu arriscaria, sozinho, ele chamou dois “voluntários” para me ajudar. Disse que não podia deixar as pessoas dizerem que um bibliotecário empoeirado tinha mais coragem que a polícia. {…}
─ E, por fim, tentei encontrar a Hagadá – ele disse.
Na década de 1950, um funcionário do museu  fora implicado em uma trama para roubar a Hagadá, por isso, desde então, o diretor do museu era o único que sabia a combinação do cofre onde o livro era guardado. Mas o diretor morava do outro lado do rio, onde a guerra era mais intensa. Ozren (o bibliotecário) sabia que ele nunca chegaria ao museu.
Ozren continuou falando baixinho, usando frases curtas, sem o menor tom de drama. Luz cortada. Um cano rompido e água jorrando. Granadas atingindo as paredes. Enquanto ele falava, eu tinha que preencher as lacunas nas frases. Já estive em muitos porões de museus para imaginar como era; como cada granada que atingia o prédio devia provocar uma chuva de reboque que caía sobre os objetos preciosos, e sobre ele também, entrando-lhe nos olhos, enquanto ele se agachava no escuro, com as mãos tremendo, acendento um fósforo atrás de outro para ver aonde estava indo. Aguardando uma pausa no bomboradeio para ouvir o som correto enquanto tentava toda combinação possível, uma atrás da outra. E não conseguindo ouvir nada, enfim, porque o sangue pulsando na cabeça era ruidoso demais.
─ Como é que você conseguiu abrir afinal?
Ele ergueu as mãos, virando as palmas para cima.
─ Era um cofre velho, não muito sofisticado ─ disse.
─ Mesmo assim…
─ Como eu lhe disse, não sou um homem religioso, mas se acreditasse em milagres… o fato de eu pegar esse livro, naquelas condições…
─ O milagre ─ falei ─ foi que você…
Ele não me deixou terminar.
─ Por favor ─ interrompeu-me contorcendo o rosto, irritado. ─ Não me veja como herói. Não me sinto assim. Francamente, eu me sinto péssimo, por causa de todos os livros que não consegui salvar. ─ Ele desviou o olhar.
Acho que foi isso que me pegou, aquele olhar. Aquela reticência. Talvez por eu ser o oposto de corajosa, sempre tive certas suspeitas dos heróis. Sou inclinada a pensar que eles não têm imaginação; do contrário, não poderiam fazer as coisas loucas que fazem. Mas aquele era um homem que arriscava a vida por causa de livros perdidos, e do qual você tinha que arrancar informações a saca-rolha para saber o que ele tinha feito. Eu começava a gostar dele, e bastante.

Geraldine Brooks in As Memórias do Livro

Objetos, não pessoas

Posso dizer logo de início: aquele não era o meu tipo normal de trabalho. Gosto de trabalhar sozinha, em meu laboratório bem iluminado, limpo e silencioso. {…} Não pude conter um suspiro. Meu trabalho tem a ver com objetos, não pessoas. Eu gosto de matéria, fibra, a natureza dos variados materiais usados para fazer um livro. {…} Claro que um livro é mais do que a soma de seus materiais. É um artefato da mente e da mão humanas. Os batedores de ouro, os moedores de pedra, os escribas, os encadernadores, são os indivíduos com quem eu mais me sinto à vontade. Às vezes, no silêncio, essas pessoas falalm comigo. Permitem-me ver quais são suas intenções, e isso me ajuda com meu trabalho”

. Geraldine Brooks in As Memórias do Livro .