OS MÚSCULOS

Todos os domingos, pela manhã, enquanto os outros homens se reuniam no bar da esquina, ou iam para a várzea, ele ficava no quintal, remexendo a terra. O quintal media 4 metros quadrados, o máximo que a administração do com junto residencial fornecia. Ali, ele tinha alface, beterraba e couve.

Naquela manhã, ao passar o rastelo sentiu alguma coisa prendendo os dentes da ferramenta. Forçou, era resistente. Abaixou-se e notou fios prateados que saíam da terra. Era arame, novo. Quando tinha revirado a terra para adubar, tinha cavado fundo sem encontrar nada. Além disso, arame velho estaria enferrujado. Tentou puxar o fio, estava bem preso. Buscou um alicate, conseguiu pouca coisa. Cavou. O arame penetrava na terra alguns metros. Cavou mais. Como é que tinham feito uma coisa dessas, da noite para o dia? Preocupado com a horta, parou a pesquisa. Regou um pouco as sementes, pensando se o arame não ia prejudicar a germinação.

No dia seguinte, levantou-se bem cedo, para observar. O arame tinha crescido. Nos três canteiros, havia brotos de dez centímetros de altura. Um araminho espigado, vivo, forte. Teria sido um pacote errado de sementes? Não, era loucura. Semente de arame?

Lucidez

Fomos ingênuos. Como eu, muitos. Tínhamos nas mãos posições através das quais era possível, lentamente, instilar um gesto de lucidez, um pouco de consciência. Semente de inquietação. Alarme. Mesmo com toda a vigilância”.

Ignácio de Loyola Brandão in Não Verás País Nenhum .

O horror que foi a árvore tombando

Certa vez, estava no mato, olhando os machados arrancarem das árvores lascas brancas, vermelhas. Aquele enorme V ia surgindo ao pé do tronco, até a árvore desabar. Meu pai me instalou num tronco recém-cortado, cheio de anéis. Meu avô contou os anéis, um a um, e me disse:
-Esta tinha trezentos anos. Oitenta metros. Foi dura de cair.
Havia nele orgulho e desafio. O tronco era quase plataforma. Devia ter sido uma árvore fantástica. E meu avô tinha derrubado. Ele. Com suas mãos calosas, os braços duros. Sentado sobre os anéis, olhava para o velho. Contente. Satisfeito por ser neto de um homem que não se intimidava.
Quando vi a primeira árvore cair, meu pai estava ao meu lado. O barulho foi tão horrível que nem a presença dele impediu o meu susto. Chorei. Agora penso: teria sido pena? Não, seria racionalizar os sentimentos de uma criança. Me lembro até hoje o horror que foi a árvore tombando. Um gigante desprotegido, os pés cortados, solto de repente, desabando num ruído imenso. Choro, lamento, ódio, socorro, desespero, desamparo. Ao tombar, tive a impressão de que ela procurava se amparar nas outras. Se apoiar em arbustos frágeis, que se ofereciam impotentes.
Fracos demais para segurá-la. Porém solidários. Morriam juntos, arrastados, esmagados. Ao mesmo tempo que tentava se apoiar, aquela coisa imensa parecia ter vergonha de se mostrar tão fraca. De ter sido derrubada sem nenhuma reistência. Urrava de ódio. Poderia resistir? Não via como.
Na confussão que se estabelecia nela, caía. Arrastando tudo, arebentando árvores menores, fazendo um barulho que me parecia cachoeira, ou represa estourando.

Ignácio de Loyola Brandão in Não Verás País Nenhum

Aparentemente simples

Para eliminar o sofrimento, elimina-se a memória. Uma cirurgia aparentemente simples, única solução. Só que eu não consigo, tudo é vivo dentro de mim”.

. Ignácio de Loyola Brandão in Não verás país nenhum .

Bibliotecas e Bibliotecárias

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Bibliotecas têm um cheiro especial, atmosfera própria, uma luz particular. Quanto às bibliotecárias, identifico-as pelo olhar. Olhem nos olhos delas, logo verão se gostam do que fazem. Elas têm viço, como se dizia. Levam uma chama nos olhos quando estão entre livros. Circulam pelos corredores entre estantes de modo desenvolto, em passos leves de dança. Por menor que seja a biblioteca pública, elas têm orgulho do que fazem, conhecem o papel que desempenham”.

. Ignácio de Loyola Brandão .

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