COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: Não Verás País Nenhum – Ignácio de Loyola Brandão

Angustiante. Impactante. Assustador. São algumas das palavras com as quais eu descrevo essa leitura que me surpreendeu do início ao fim. Este é o primeiro livro de Ignácio de Loyola Brandão que leio e com certeza não será o último. Gostei muito da história e de sua narrativa desenvolta que nos envolve na leitura e torna impossível não querer ir até o final, mesmo que este final pareça horripilante.

O autor nos leva a um futuro terrível e apocalíptico onde bebe-se com naturalidade água reciclada de urina pois os rios secaram e a água do mar está tão poluída que é impossível até mesmo encostar nela; onde visita-se um museu com águas engarrafadas do passado destruído e é possível ouvir o som das cachoeiras já inexistentes e o canto dos pássaros já disimados; onde fez-se uma cerimônia para o corte da última árvore do Brasil, aplaudida e filmada como algo magnífico e onde se luta por um cartão de água e comida e por viver o mais dignamente possível debaixo de um sol escaldante que arranca a pele e deixa as pessoas loucas.

Este livro é um sério alerta do que nos espera no futuro. E um futuro que ao meu ver, não está mais tão longe como imaginamos. O governo durante todo o tempo tenta abrandar as consequências da destruição humana com campanhas publicitárias otimistas que mostram apenas o lado bom das coisas (e mesmo quando esse lado não existe, inventam). Trabalham através da opressão pelos Civiltares e pela massificação através da comida factícia que teria sido criada já com ingredientes que inibem o questionamento e a insatisfação.

“– Lembra-se de quando líamos os livros de Clark, Asimov, Bradbury, Vogt, Vonnegut, Wul, Miller, Wyndham, Heinlein? Eram supercivilizações, tecnocracia, sistemas computadorizados, relativo – ainda que monótono – bem-estar. E, aqui, o que há? Um país subdesenvolvido vivendo em clima de ficção científica. Sempre fomos um país incoerente, paradoxal. Mas não pensei que chegássemos a tanto”.

Muitos trechos chocantes e cenas e situações de arrepiar! Quando o noticiário da TV passa novamente a cerimônia do corte da última árvore no Brasil, Sousa, o protagonista, se recorda de sua infância e lembra quando o avô o levava para assistí-lo derrubar árvores. Me emocionei bastante com o trecho, pois assim como ele, sempre tive a mesma impressão a respeito de uma árvore tombando:

“Quando vi a primeira árvore cair, meu pai estava ao meu lado. O barulho foi tão horrível que nem a presença dele impediu o meu susto. Chorei. Agora penso: teria sido pena? Não, seria racionalizar os sentimentos de uma criança. Me lembro até hoje o horror que foi a árvore tombando. Um gigante desprotegido, os pés cortados, solto de repente, desabando num ruído imenso. Choro, lamento, ódio, socorro, desespero, desamparo. Ao tombar, tive a impressão de que ela procurava se amparar nas outras. Se apoiar em arbustos frágeis, que se ofereciam impotentes.Fracos demais para segurá-la. Porém solidários. Morriam juntos, arrastados, esmagados. Ao mesmo tempo que tentava se apoiar, aquela coisa imensa parecia ter vergonha de se mostrar tão fraca. De ter sido derrubada sem nenhuma reistência. Urrava de ódio. Poderia resistir? Não via como. Na confusão que se estabelecia nela, caía. Arrastando tudo, arrebentando árvores menores, fazendo um barulho que me parecia cachoeira, ou represa estourando.”

Me lembrou muito 1984 e Admirável Mundo Novo, e assim como estes, merece as cinco estrelas pelo alerta e pela mensagem. Precisamos realmente refletir e repensar. Este livro nos dá essa oportunidade e abre nossas mentes para questionamentos e a vontade de querer fugir desse futuro tão horrível. A narrativa de Loyola é tão clara que quase podia ver as cenas acontecendo na minha frente. Admiro muito autores que conseguem nos transportar para os cenários e nos fazem passar pelas vicissitudes das personagens.

Este é o tipo de leitura essencial, além de recomenda!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
SERVIÇO
Blog: http://blogentreaspas.com
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Sempre fomos…

“– Lembra-se de quando líamos os livros de Clark, Asimov, Bradbury, Vogt, Vonnegut, Wul, Miller, Wyndham, Heinlein? Eram supercivilizações, tecnocracia, sistemas computadorizados, relativo – ainda que monótono – bem-estar. E, aqui, o que há? Um país subdesenvolvido vivendo em clima de ficção científica. Sempre fomos um país incoerente, paradoxal. Mas não pensei que chegássemos a tanto”.

. Ignácio de Loyola Brandão in Não Verás País Nenhum . 

Fomos ingênuos. Como eu, muitos!

Roubartilhei daqui:

REGOZIJEM-SE COM O OURO DE NOSSOS GARIMPOS, COM A MADEIRA QUE PODEMOS EXPORTAR, ORGULHEM-SE COM AS SAFRAS IMENSAS DAS TERRAS FÉRTEIS, ONDE, PLANTANDO, TUDO COLHEREMOS. CULTIVEMOS O OTIMISMO, A CONFIANÇA, ABAIXO OS NEGATIVISTAS.

Duas coisas eram pior que o câncer para a Alta Hierarquia do Novo Exército: os espíritos negativistas e os comunistas. Eram caçados e isolados. Na altura do Grande Ciclo de Combate à Abertura da Igreja, também apelidada de Coliseu, os comunistas tinham se tornado bichos raros, quase extintos.

Um pouco pela repressão, e muito pelo desencanto, extinguiam-se, do mesmo modo que aves e animais da fauna brasileira. Com a diferença que os bichos podiam se dar ao luxo de reservas particulares, onde se tentava a sua reprodução em cativeiro. Já em cativeiro, os comunistas definhavam.

A última notícia sobre o que estava acontecendo ao norte, foi dada por um Ministro, o dos Negócios Imobiliários, cargo criado pela necessidade de se controlar a especulação, não somente nas grandes cidades, como em toda área do litoral, onde os loteamentos se sucederam, velozes e devastadores.

Na verdade, o Ministro cuidou voraz e imediatamente de proteger o seu grupo. Controlou a entrada de arrivistas, eliminou concorrentes. Uma tarde, célebre, ele declarou na televisão: “Devemos estar orgulhosos pela conquista que acabamos de fazer. Um grande feito deste governo que pensa no futuro”. Porque, disse ele, a história vai nos registrar como o Esquema que deu ao país uma das grandes maravilhas do mundo. Não é apenas a África que pode se orgulhar do seu Saara, o deserto que foi mostrado em filmes, se tornou ponto turístico, atração, palco de aventuras, celebrado, glorificado.

A partir de hoje — e ele sorriu, embevecido — contamos também com um deserto maravilhoso, centenas de vezes maior que o Saara, mais belo. Magnificente. Estamos comunicando ao mundo a nona maravilha. Breve, a imprensa mostrará as planícies amarelas, dunas, o curioso leito seco dos rios.”

Continuar lendo “Fomos ingênuos. Como eu, muitos!”