COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: A Menina que Roubava Livros – Markus Zusak

É só uma pequena história, na verdade, sobre, entre outras coisas:
. uma menina
. algumas palavras
. um acordeonista
. uns alemães fanáticos
. um lutador judeu
. E uma porção de roubos
Vi três vezes a menina que roubava livros”.

 Esse livro quase desbancou o meu favorito “O morro dos ventos uivantes”. Ficou ali em segundo por um décimo! É perfeito, suave e trágico ao mesmo tempo!

“Quando a morte conta uma história, você deve parar para ler”. 

A história se passa nos anos entre 1939 e 1943, na época do Holocausto. Liesel Meminger encontrou a Morte neste período por três vezes e saiu viva das três ocasiões. A Morte, de tão impressionada, decidiu contar a história de Liesel e nos presenteou com esse livro mágico e encantador.

“Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber”.

Desde o início da vida de Liesel, ela precisou achar formas de se convencer do sentido de viver. Assistiu seu irmão morrer no colo da mãe e foi largada pela mesma aos cuidados de pessoas estranhas: Hans e Rosa Hubermann, um pintor desempregado e uma dona de casa rabugenta. Trazia escondido em sua mala, um livro: O Manual do Coveiro. O rapaz que enterrara seu irmão deixara o livro cair na neve por distração e este foi o primeiro dos vários livros que Liesel roubaria ao longo dos quatro anos seguintes.

“Uma definição não encontrada no dicionário: ‘Não ir embora’: Ato de confiança e amor, comumente decifrado pelas crianças”.

Foi essa paixão pelos livros somada ao amor das pessoas que foram colocadas em seu caminho que salvaram a vida de Liesel naquele tempo de horror, quando a Alemanha estava sendo transformada diariamente pela guerra. Seu gosto pelos livros e a sede por conhecimento foram o sentido que faltava em sua vida e em mais de uma ocasião a salvou da solidão, da tristeza e até mesmo da morte.

São inúmeros os momentos extremamente emocionantes desse livro onde a força do amor e a importância das palavras são extremamente ressaltados. A história deste livro mescla as descobertas e peripécias da menina Liesel de 9 anos e os riscos que a família corre quando Hans decide esconder um judeu, amigo seu, no porão de sua casa. Como testemunha desses acontecimentos, temos a Morte, a narradora dessa história que descreve cada situação com tamanha poesia e emoção que é impossível não se sentir parte da história, sofrer e sorrir ao mesmo tempo.

Impossível também é não se apegar aos personagens maravilhosos criados por Zusak. Ressalto meu imenso carinho por Hans e Rosa, os pais adotivos de Liesel e suas formas extraordinárias de demonstrar amor e por Rudy, melhor amigo de Liesel e o namorado que nunca teve.

Simplesmente inspirador, triste e maravilhoso. Leitura recomendadíssima.

Leitura mais do que recomendada, essencial! Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
SERVIÇO
Blog: http://blogentreaspas.com
Instagram: @blog_entreaspas
Email: entreaspasb@gmail.com

Se ao menos…

Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber”. 

. Markus Zusak in A Menina que Roubava Livros .

Resenha: A Menina que Roubava Livros


Livro:
A Menina que Roubava Livros
Autor(a): Markus Zusak
Editora: Intrínseca
Páginas: 480

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

 

Primeiro, as cores.
Depois, os humanos.
Em geral, é assim que vejo as coisas.
Ou, pelo menos, é o que tento”.

A quarta capa do livro diz que “quando a morte conta uma história, você deve parar para ler”. E deve mesmo. Esse livro quase desbancou o meu favorito “O morro dos ventos uivantes”. Ficou ali em segundo por um décimo! É perfeito, suave e trágico ao mesmo tempo!

Continuar lendo “Resenha: A Menina que Roubava Livros”

Uma definição

Uma definição não encontrada no dicionário: ‘Não ir embora’: Ato de confiança e amor, comumente decifrado pelas crianças”. 

. Markus Zusak in A Menina que Roubava Livros .

Palavras

Duas palavras gigantescas: Sinto muito”.

. Markus Zusak in A Menina que Roubava Livros .

Quando?

Quando os livros e as palavras haviam começado a significar não apenas alguma coisa, mas tudo?”.

. Markus Zusak in A Menina que Roubava Livros .

Devagar

Enquanto ela se vai, eu ainda sinto seus lábios na minha pele. O sabor deles.
Fico ali só olhando, até ela dobrar a esquina no final da rua. Um pouquinho antes de ela dobrar, ela sabe que fiquei lá parado e se vira para acenar. Levanto a mão para responder, e então ela se vai.
Devagar.
Às vezes dolorosamente.
A Audrey me mata.

Ed Kennedy, personagem de
Markus Zusak in Eu sou O Mensageiro

12.03 [09] – Dia do Bibliotecário

A sala foi encolhendo sem parar, até que a menina que roubava livros pôde tocar nas estantes, a poucos passinhos de distância. Correu o dorso da mão pela primeira prateleira, ouvindo o arrastar de suas unhas deslizar pela espinha dorsal de cada livro. Soava como um instrumento, ou como as notas de pés em correria. Ela usou as duas mãos. Passou-as correndo. Uma estante encostada em outra. E riu. Sua voz se espalhava, aguçada na garganta, e quando ela enfim parou e ficou postada no meio do cômodo, passou vários minutos olhando das estantes para os dedos, e de novo para as prateleiras.
Em quanto livros tinha tocado?
Quantos havia sentido?
Andou até o começo e fez tudo de novo, dessa vez muito mais devagar, com a mão virada para frente, deixando a palma sentir o pequeno obstáculo de cada livro. Parecia magia, parecia beleza, enquanto as linhas vivas de luz brilhavam de um lustre. Em vários momentos, Liesel quase puxou um título do lugar, mas não se atreveu a perturbá-los. Eram perfeitos demais.

Markus Zusak in A menina que roubava livros

Avançam

{…} e, após mais alguns minutos ao lado do amigo, conseguiu levantar-se do chão. Fico impressionada com o que os seres humanos são capazes de fazer, mesmo quando há torrentes a lhes descer pelos rostos e eles avançam cambaleando, tossindo e procurando, e encontrando”

. A Morte, personagem de
Markus Zusak
in A Menina que Roubava Livros .

Diário da Morte

Veio o verão.
          Para a menina que roubava livros, tudo corria bem.
          Para mim, o céu era da cor dos judeus.

Quando seus corpos acabavam de vasculhar a porta em busca de frestas, as almas subiam. Depois de suas unhas arranharem a madeira, e em alguns casos, ficarem cravadas nela, pela pura força do desespero, seus espíritos vinham em minha direção, para meus braços e galgávamos as instalações daqueles chuveiros, escalávamos o telhado e subíamos para a largueza segura da eternidade. E continuavam a me alimentar. Minuto após minuto. Chuveiro após chuveiro.
Nunca me esquecerei do primeiro dia em Aschwitz, da primeira vez em Mauthausen. Nesse segundo local, com o correr do tempo, também passei a pegá-los no fundo do grande penhasco, onde suas fugas acabavam terrivelmente mal. Havia corpos quebrados e meigos corações mortos. Ainda assim, era melhor do que o gás. Alguns deles eu apanhava ainda a meio caminho da descida. Salvei você, pensava comigo mesma, segurando suas almas no ar, enquanto o resto de seu ser ─ suas carcaças físicas ─ despencava na terra. Eram todos leves, como cascas de nozes vazias. E um céu  enfumaçado nesses lugares. O cheiro fazia lembrar uma fornalha, mas ainda muito frio.
Estremeço ao recordarao tentar desrealizar aquilo.
Bafejo ar quente nas mãos, para aquecê-las.
Mas é difícil mantê-las aquecidas quando as almas ainda tiritam.

Deus.
Sempre pronuncio esse nome, ao pensar naquilo.
Deus.
Duas vezes, eu repito.
Digo o nome d’Ele na vã tentativa de compreender. “Mas não é sua função compreender“. Essa sou eu respondendo. Deus nunca diz nada. Você acha que é a única pessoa a quem Ele nunca responde?Sua tarefa é…” E eu paro de me escutar, porque para dizê-lo curto e grosso, eu canso a mim mesma. Quando começo a pensar desse jeito, fico inteiramente exausta e não tenho o luxo de me entregar à fadiga. Sou obrigada a continuar, porque, embora isso não se aplique a todas as pessoas da Terra, é verdade para a vasta maioria: a morte não espera por ninguém ─ e, quando espera, em geral não é por muito tempo.

 

          Em 23 de junho de 1942, havia um grupo de judeus franceses numa prisão alemã em solo polonês. A primeira pessoa que peguei estava perto da porta, com a mente em disparada, depois reduzida a passadas, depois mais lenta, mais lenta…

 

Por favor, acredite quando lhe digo que, naquele dia, peguei cada alma como se fosse um recém-nascido. Cheguei até a beijar alguns rostos exaustos, envenenados. Ouvi seus últimos gritos entrecortados. Suas palavras evanescentes. Observei suas visões de amor e os libertei de seu medo.
A todos levei embora e, se houve um momento em que precisei de distração, foi esse. Em completa desolação, olhei para o mundo lá em cima. Vi o céu transformar-se de prata em cinza e em cor de chuva. Até as núvens tentavam fugir.
Vez por outra, eu imaginava como seria tudo acima daquelas nuvens, sabendo sem sombra de dúvidas, que o Sol era louro e a atmosfera interminável era um gigantesco olho azul.

Eles eram franceses, eram judeus, e eram você.

A morte, personagem de
Markus Zusak in A menina que roubava livros