A Inspiração da Leitura

Fala-se às vezes de ‘inspiração’ a propósito de quem escreve uma obra. Mas nunca se diz isso de quem a lê. Mas lê-la é escrevê-la outra vez. E é preciso estar-se inspirado para o conseguir bem. A inspiração possível de quem escreve um livro cumpre-se nele sem mais para o autor. Mas a de quem o reescreve, ou seja lê, é sempre variável. Ela varia não só com o desgaste da repetição da leitura, mas ainda com a variação dessa variação e o motivo dela. Porque por arranjos incognoscíveis pode alternar a adesão com a repulsa e recuperar depois em adesão o que repelira e o contrário. Como pode tudo ter que ver com razões mais cognoscíveis ou razoáveis e tudo depender assim de um insulto que nos doeu ou de um vinho que nos caiu mal. Um livro que se escreveu é imutável. O mesmo livro que se lê não o é. A inspiração de quem escreveu deu o que tinha a dar. A de quem o recebe varia e não se esgota. Porque se se esgotar, o livro não tinha nenhuma”

. Vergílio Ferreira in Escrever .

Escreve!

Senta-te diante da folha de papel e escreve. Escrever o quê? Não perguntes. {…} Escreve para te doeres disso, de não saberes. E já houve resposta bastante”

. Vergílio Ferreira in Pensar .

O Livro Bem Escrito

Que ridículo e mesmo estúpido dizer-se de um livro que está bem escrito. Não é «bem escrito» que está. Está é sentido originalmente, original nas observações, inteligente na reflexão. É por isso que não se pode imitar. Pode-se é ser original de outra maneira. Há realmente livros que são apenas «bem escritos». São os livros banais, com palavras trabalhadas ao torno, frases que se pretendem «despojadas», reduzidas ao «essencial», e cruas. Mas como o que nelas está não representa um sentir originário, nem uma observação imprevista, nem uma reflexão que nos surpreenda pela justeza e profundidade, o que delas resulta é uma construção pretensiosa, estéril e quase sempre irritante. Decerto um romance (como a poesia segundo Mallarmé e como creio já ter dito), faz-se com palavras. Pois com que é que havia de fazer-se? Mas antes disso faz-se com o impulso animador a essas palavras e que assim não passa bem por elas mas por entre elas, fazendo delas apenas um apoio para passar além, como o som passa pelas cordas mas existe por entre elas e é nesse som o indizível que nos emociona. O que nos fica de um livro «bem escrito» é essa emoção que já não lembra as palavras e vive por si.

Eis porque tal livro é inimitável e apenas poderá repetir-se, ou seja plagiar-se. Imitar verdadeiramente esse livro é recompor uma emoção afim e inventar outras palavras que traduzam esse sentir, ou seja que lhe sirvam de pretexto ou estratagema para que esse sentir (e pensar/sentir) se realize como a música nas cordas de um instrumento. O escritor medíocre imagina que todo o seu trabalho deve incindir no trabalhar uma frase. Ora não é a frase que tem de se trabalhar: é aquilo que há-de passar por ela. Os autores célebres que trabalharam a frase, na realidade trabalharam apenas aquilo que haviam de exprimir; testaram na frase a realização de uma expressão. O escritor medíocre dá como já adquirido o que haveria a dizer e todo o seu esforço é secar o período, burilar ou envernizar o vocábulo. E no fim de contas, este é que «escreve bem». Mas quem assim escreve bem, escreve bastante mal. Não digo rasamente que o «conteúdo» preceda a sua «expressão». Mas o que preexiste à expressão não é um puro nada. Exprimir é operar e concretizar esse algo. Mas esse algo existe. Escrever bem, como se diz, é realizar pela escrita um «bem» que aí se revela mas que está antes e depois disso em que se revela. Escreve-se bem com o espírito e a sensibilidade – não com um dicionário. Embora seja no dicionário que está toda a obra-prima. Como na pedra está toda a melhor escultura.

Vergílio Ferreira in ‘Conta-Corrente 4’

O Homem, O Escritor

─ Gostei de estar consigo, mas gosto mais de o ler.
─ Mas foi comigo que esteve quando me leu. Não agora…”

. Vergílio Ferreira in Pensar .  

O que procuro na Literatura?

Que é que eu procuro na literatura? Que é que me arrasta para este combate interminável e sempre votado ao fracasso? Como é imbecil pensar-se que se escreve para se «ter nome» e as vantagens que nisso vêm. Espera-se decerto sempre fazer melhor, mas só porque sempre se falhou. Assim se sabe também que se vai falhar de novo. Não se escreve para ninguém, o problema decide-se apenas entre nós e nós. Mas há um lugar inatingível e cada nova tentativa é uma tentativa para o alcançar. O desejo que nos anima é o de fixar, segurar pela palavra o que entrevemos e se nos furta. Julgamos às vezes que o atingimos, mas logo se sabe que não. Miragem perene de uma presença luminosa, de um absoluto de estarmos inundados dessa evidência, encantamento que nos deslumbra no instante e nesse instante se dissolve. O que me arrasta nesta luta sem fim é o aceno de uma plenitude de ser, a integração perfeita do que sou no milagre que me entreluz, a transfiguração de mim e do mundo no que fulgura e vai morrer. Recaído de cada vez no mais baixo, na grossa naturalidade de que sou feito, de nada me vale a experiência conquistada, porque se começa sempre no zero. Então se luta de novo, se pensa que «agora é que é», nos abeiramos com humildade e terror, na esperança irrisória de que tocaremos enfim o lume que nos fascina. E quase se toca e nos queimamos na sua chama, nos transcendemos ao seu limite, no ápice desse máximo que nunca é. Luta absurda e vã, esforço inútil que recolhe apenas as sobras do milagre, nessa intérmina procura se consome a vida inteira. Mas que a ilusão nos iluda e uma vida não chega para a pagar. Que é que eu procuro na literatura? O breve nada que é tudo, o breve fulgor de um Deus que morreu. Ou que nunca existiu. Ou que nunca pôde existir… E no entanto – como o esquecer? – toda esta alegria feita de amargura, todo este esforço que te preencheu a vida será em breve um amontoado de papéis apodrecidos, lixeira para venda ao quilo ou para criação de um «posto de trabalho» municipal. Mas não sofras. Foste um momento a reinvenção do Deus que inventaste. E «mais vale reinar uma hora do que servir toda a vida». Disse-o uma senhora histórica que andava nos livros da instrução primária, ou seja, primeira. E a História é ainda a «mestra da vida». Vou ser discípulo a sério

Vergílio Ferreira, in Conta-Corrente 3