COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: Orlando – Virgínia Woolf

Surpreendente!

“Porque amava a literatura tanto quanto a sua própria vida”.

Essa foi a minha primeira leitura de Virginia Woolf e confesso foi bastante desafiadora. Não é o tipo de leitura que te prende do começo ao fim, mas a narrativa é muito poética e aborda temos muito profundos, importantes, e extremamente atuais. Nunca tinha lido nada a respeito do livro, o que me deixou muito feliz pois cheguei ao ápice da história totalmente despreparada e isso tornou tudo ainda mais interessante.

A escolha de ler esse livro se deu quando vi uma chamada de leitura coletiva do blog Literature-se e como já queria ler algo da autora há tempos resolvi aceitar. No projeto, o intuito era ler 10 páginas do livro por dia o que consegui fazer nos 10 primeiros dias, e depois li o restante do livro em apenas um dia e infelizmente, fora da data final do projeto. Mas fico feliz de ter terminado e finalmente lido uma obra dessa autora fenomenal.

“A memória é a costureira, e costureira caprichosa. A memória faz a sua agulha correr para dentro e para foram, para cima e para baixo, para cá e para lá. Não sabemos o que vem em seguida, o que virá depois”.

O subtítulo do livro é: uma biografia, portanto a história é narrada pelo seu biógrafo fictício e nos conta a vida de Orlando a partir de seus 16 anos. Orlando é um a rapaz nobre, muito bonito, que adora a natureza e é dado a escrever poemas e tem talento para isso. É bastante orgulhoso do passado de sua família, composta por guerreiros, e participa de muitos momentos importantes da história dos países por onde passa no decorrer do livro.

E aí está uma coisa fantástica e muito interessante que me dei conta tardiamente nesta história. Orlando nasceu no século XVI, mas quando faz 30 anos já é meados do século XIX e o livro termina no século XX. Temos então um cenário de fundo que se passa por mais de 300 anos de história, sendo que a vida de Orlando é contata até os seus 36!

 “Não seria exagero dizer que saía do almoço com trinta anos, e voltava para o jantar com cinquenta e cinco, pelo menos. Algumas semanas acrescentaram um século à sua idade; outras, não mais de três segundos, o máximo”.

Como se não bastasse, não é só esse fato que torna Orlando uma obra surpreendente! Quando está em Constantinopla, exercendo seu trabalho como Embaixador, Orlando dorme por 7 dias seguidos e quando acorda, se transformou numa MULHER!! E esse sem sombra de dúvidas é o momento mais impactante e importante do livro. A mudança não se dá apenas na troca de sexo (coisa que acontece de forma natural e é aceita por Orlando com uma tranquilidade assustadora), mas na percepção da personagem em relação a vida.

A partir desse ponto, muitos temas importantes e profundos são tratados quando Orlando, agora uma mulher, começa a perceber os dissabores e dificuldades que antes não tinha sendo homem. É possível notar isso em suas reflexões…

“A que estranha situação chegamos quando toda a beleza de uma mulher tem que ser mantida coberta para que um marinheiro não caia do mastro principal”

“O homem tem a mão livre para pegar a espada, a mulher deve usar a sua para evitar que os cetins lhe escorreguem dos ombros”

“O homem encara o mundo de frente, como se tivesse sido feito para seu uso e de acordo com o seu gosto. A mulher lança-lhe um olhar de esguelha, cheio de sutileza e até de desconfiança. Se usassem as mesmas roupas, é possível que sua maneira de olhar viesse a ser a mesma”.

Além disso trata de temas como: casamento, gravidez, questões de gênero, patriarcado.

Simplesmente fantástica a forma como todas essas questões profundas e complicadas são tratadas de forma leve e até mesmo icônica na narrativa do biógrafo fictício que acompanha a busca de Orlando pela felicidade e sentido na vida. Me identifiquei muito com a personalidade de Orlando (desde quando ainda era homem e depois, quando se transformou em mulher) e seu amor pela literatura, pela solidão, pela natureza e os animais. Vale ressaltar a escrita poética, sensível e belíssima de Virginia Woolf, fiz inúmeras marcações!!

“Por isso a sociedade é, ao mesmo tempo, tudo e nada. A sociedade é a mais poderosa mistura do mundo”.

Leitura super recomendada!!!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
SERVIÇO
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A Vida

“Pois só Deus sabe por que a gente a ama e a contempla e a idealiza e a constrói e a desmonta, e a recria a cada momento, do zero; Mesmo as mulheres mais esfarrapadas, as mais miseráveis,largadas nos umbrais das casas (sendo a bebida sua derrocada), fazem igual; e não são compreendidas, disso tinha certeza, por leis parlamentares pela mesmissa razão: amam a vida. Nos olhos das pessoas, no balanço dos passos, na marcha, no andar arrastado; no alvoroço e no estardalhaço, nas carroças, automóveis, ônibus, furgões, homens-sanduíches de passos arrastados, ritmados; nas bandas de metais, realejos; no triunfo e na melodia e na estranha canção aguda de um avião na no alto estava o que ela amava; a vida”.

. Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway .

Monstro Brutal

“Importunava-a, contudo, ter vivo dentro dela esse monstro brutal, ouvir os gravetos se partindo ao meio e sentir os cascos plantados nas profundezas daquela floresta abarrotada de folhas, a alma; jamais se sentia de todo contente, ou de todo segura, pois a qualquer momento a besta se agitaria, esse ódio que, sobretudo desde a doença, tinha o poder de fazê-la se sentir esfolada, ferida na espinha dorsal; iflingia nela uma dor física, e o prazer que sentia na beleza, na amizade, em estar bem, em ser amada e manter um lar adorável oscilava, estremecia e vergava como se de fato houvesse um monstro a=cavoucando as raízes, como se toda a panóplia de contentamento não passasse de amor próprio! esse ódio”

. Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway .

25.01 – 127º Aniversário de Virgínia

A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata”

. Virgina Woolf .

25.01 – 126º Aniversário de Virgínia

Virginia Woolf

Cada um tem o seu passado fechado em si, tal como um livro que se conhece de cor, livro de que os amigos apenas levam o título”.

. Virginia Woolf .  

Leia mais sobre Virgínia

Esses eus

Esses eus de que somos feitos, sobrepostos como pratos empilhados nas mãos de um empregado de mesa, têm outros vínculos, outras simpatias, pequenas constituições e direitos próprios – chamem-lhes o que quiserem (e muitas destas coisas nem sequer têm nome) – de modo que um deles só comparece se chover, outro só numa sala de cortinados verdes, outro se Mrs. Jones não estiver presente, outro ainda se se lhe prometer um copo de vinho – e assim por diante; pois cada indivíduo poderá multiplicar, a partir da sua experiência pessoal, os diversos compromissos que os seus diversos eus estabelecerem consigo – e alguns são demasiado absurdos e ridículos para figurarem numa obra impressa”.

. Virginia Woolf .