COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: A Forma da Água – Guillermo Del Toro & Daniel Kraus

“Ele não é humano – ele diz. Estas são as palavras de um velho cansado, implorando para viver seus últimos dias em paz. Antes que possa escapar pela saída de incêndio, no momento em que está se virando, ele vê as mãos de Elisa sinalizarem em resposta e fica com a sensação de que elas fazem um marca em suas costas, através do paletó, do suéter, da camisa, do músculo, do osso, fundo o bastante para que machuquem como um ferimento recente por todo o caminho até a Klein & Saunders, onde ela começa a coçar e se transformar na cicatriz que ele será forçado a encarar pelo resto da vida: ‘Nem nós'”.

A Forma da Água é um ficção maravilhosa criada por Guilhermo Del Toro e transformada em livro pelo autor Daniel Kraus. Desde que li/assisti “O Labirinto do Fauno” estou apaixonada por Del Toro e sua capacidade de reunir fatos históricos com fantasia, mesclando o improvável ao possível, o místico ao cotidiano e fazendo isso com cenas tão belas e cheias de sensibilidade que é impossível não se encantar.

“Homens deviam ser melhores que monstros”.

Nesta trama, Del Toro trata de diversos temas importantes, sendo o mais relevante e o foco central dessa história, as dificuldades do ser humano em aceitar as diferenças. Elisa, é muda, órfã e servente, o que a faz ser praticamente invisível a todos a sua volta, trazendo uma solidão que está além da companhia, mas da compreensão e sensação de pertencimento. Giles, vizinho de Elisa e um de seus únicos amigos, é gay e um artista decadente que passa por situações de preconceito e desconforto. Zelda, colega de trabalho de Elisa, é negra e sofre muitas humilhações. Para culminar essa equipe, está o ser sobrenatural, o “recurso” da Occan, empresa onde Elisa e Zelda trabalham, que foi capturado na Amazônia onde era chamado de Deus Brânquia e tratado como tal, para virar projeto de pesquisa e ser torturado em busca de inovações.

“As criaturas mais inteligentes – diz ele com delicadeza – são geralmente as que fazem menos sons”. 

Ao fazer contato com o homem-peixe, Elisa se sente pela primeira vez em toda sua vida, vista de verdade, compreendida e de forma nenhuma julgada por sua mudez ou condição. Assim como o ser sobrenatural se sente pela primeira vez respeitado e não temido por sua aparência. Ambos sentem que apesar de serem de espécies diferentes, de mundos diferentes, são iguais em essência, mais parecidos do que os que deveriam ser seus semelhantes. A amizade que desenvolvem se transforma em um amor, que vai muito além do amor romântico. É poético, intenso, e extremamente tocante como criaturas tão diferentes se enxergam como são e amam pelo simples fato de respeitar ao invés de temer, conhecer ao invés de subjugar.

“Uma menina disse: ‘Ele faz com que eu me sinta alguém’. E elisa ficou com isso na cabeça por meses. Qual seria a sensação de se sentir alguém? De repente, existir não apenas em seu mundo, mas no de outra pessoa também?”

Afora isso, o livro tem como pano de fundo a Guerra Fria e traz muitos outros temas como disse, tratando os dilemas pessoais dos personagens e inserindo críticas sociais e políticas de forma muito clara e objetiva. Não há pontas soltas, tudo que é descrito, os diálogos e cenas são usados para fechar este ou aquele quebra cabeça e no fim tudo se completa de forma fascinante.

Uma lição de respeito e amor, que nos é transmitida através de uma incrível narrativa, cheia de cenas fortes e impactantes, mas também de extrema beleza e sensibilidade. “Assim é a vida, Elisa. Coisas remendadas juntas, sem sentido, a partir das quais nós, em nossas mentes necessitadas, criamos mitos que nos agradam. Você compreende?”

Recomendo fortemente a leitura!!!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
SERVIÇO
Blog: http://blogentreaspas.com
Instagram: @blog_entreaspas
Email: entreaspasb@gmail.com

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré

Dica de Leitura: Coraline – Neil Gaiman

Coraline, foi o primeiro livro que Neil Gaiman escreveu para o público infanto-juvenil e já acertou na mão!! É o tipo de livro que tem todo o esteriótipo do livro infantil, mas que não tem idade certa para a leitura. Ele é para todas as idades, e o mais genial é que cada idade vai entender aquilo que é necessário entender da história naquele momento. Porque Neil Gaiman conta uma história nas linhas e outra nas entrelinhas, criadas para encantar e assombrar.

“Você provavelmente acha que este mundo é um sonho bonito, mas você está errada”.

A história começa com Coraline se mudando para uma nova cidadezinha com seus pais. Eles passam a morar em uma casa antiga, tão grande que foi dividida em quatro apartamentos vendidos separadamente. Apenas um deles ainda não foi vendido e está fechado. Nos demais moram Coraline e a família, duas senhoras ex-atrizes e um senhor que diz treinar ratos para um número de circo. Coraline vive explorando sua nova casa, enquanto seus pais trabalham e não tem muito tempo pra ela. Em uma das brincadeiras para se distrair, ela conta quantas portas a casa possui e descobre uma porta misteriosa que quando aberta dá para uma parede de tijolos que separa sua casa do apartamento vazio. 

“– Gatos não têm nomes – disse.
– Não? – perguntou Coraline.
– Não – respondeu o gato. – Agora, vocês pessoas têm nomes. Isso é porque vocês não sabem quem vocês são. Nós sabemos quem somos, portanto não precisamos de nomes”.


Num dia chuvoso, sozinha em casa, Coraline decide checar essa porta novamente e descobre que a parede de tijolos sumiu e em seu lugar está uma passagem escura que a leva para sua própria casa, só que bem mais divertida e atraente. Nela, encontra seus pais, um pouco diferentes, com botões no lugar dos olhos e aparentemente bem mais afetuosos e com tempo pra ela. O gato que foge dela na casa de antes, nesta casa até conversa com ela, e ela finalmente conhece os ratos de circo que o Senhor insistia que treinava, mas que ela nunca tinha visto. Tudo é muito melhor que o original nessa nova versão de seu lar e seus pais diferentes querem convencê-la a ficar e colocar botões em seus olhos. Apesar de todas as coisas boas desse lugar mágico, Coraline sente que tem algo errado e recusa a oferta, se vendo em apuros e tendo que enfrentar desafios para sair daquele lugar e salvar seus pais verdadeiros.

“Cuidado com o que você deseja”.

É uma história grandiosa contada com simplicidade e poesia, os acontecimentos vão sendo descritos com uma sutileza tenebrosa. São retalhos dos nossos próprios medos. As personagens são profundas e inesquecíveis, nos fazendo refletir sobre as muitas faces que cada um esconde sobre sutilezas e sorrisos e os diálogos, mesmo os mais pequenos, tem sempre muito a dizer.

Do início ao fim do livro você é colocado a refletir sobre o que é real e o que não é e como as pessoas não conseguem esconder de todo suas verdadeiras naturezas. Me encantou muito como ele construiu a personagem Coraline, que apesar de ser uma criança, é extremamente esperta e consegue pressentir perigos e reconhecer certas situações com grande clareza. Sinto que as crianças são muito subestimadas hoje em dia e acabam crescendo sem atitude e pouco criativas por conta disso. Gaiman confiou que Coraline seria capaz, nós leitores também confiamos, embora com medo. Mas como ela mesma diz…

“Quando você tem medo e faz mesmo assim, isso é coragem”.

Super recomendo a leitura!!!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
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