COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: As Crônicas de Artur – Bernard Cornwell

Essa é uma trilogia maravilhosa que indico a todos que assim como eu são apaixonados pela história de Rei Arthur! Vou falar um pouco de cada um dos livros que compõem essa trilogia maravilhosa…

1° Livro: O Rei do Inverno

Acho que assim como Igraine, Rainha de Powys, casada com Brochvael e patrona de Derfel, o narrador dessa história, eu ansiava pelo romance e beleza que sempre imaginei na história de Rei Artur. Assim como ela, também, imaginava feitos grandes para personagens como Morgana e Lancelot e ficava esperando flores onde as paisagens só podiam ser áridas, como a realidade: nua e crua.

A história começa com Derfel, um dos mais próximos guerreiros de Artur, reescrevendo a lendária história do próprio Artur a pedido da Rainha Igraine. Gostei muito desse recurso utilizado pelo autor, pois faz com que pareça ainda mais real a nossos olhos. Além disso, a narrativa é bastante objetiva e prende a atenção. O Rei do Inverno é o primeiro livro da coleção “As Crônicas de Artur” e é grande a diferença dessa história com outras tantas já contadas sobre ele. Cornwell, pelo que pude notar na leitura e pelo que escreveu em sua “nota do autor” foi o mais fiel possível aos fatos históricos da época e embasou sua pesquisa em recentes descobertas arqueológicas deste imortal personagem, o que deixa tudo ainda mais interessante.

Sou inegavelmente apaixonada pela história do Rei Artur e confesso que só não fui capaz de dar cinco estrelas a este primeiro volume pelos motivos explicados no começo desta resenha: eu esperei mais beleza, mais romance e mais charme, principalmente em personagens pelos quais sou tão apaixonada como Morgana e Lancelot, mas Cornwell só foi capaz de mostrar a realidade e foi ótimo neste quesito. A culpa das quatro estrelas é toda minha.

Abro um parêntese aqui para dizer que Guinevere se mostrou um pouco melhor aos olhos de Cornwell do que de outros autores que já li. E acho que se talvez tivesse lido primeiro este livro, antes dos demais, principalmente As Brumas de Avalon, talvez eu não a detestasse tanto. Mas não foi o caso, e o sentimento persiste.

Em resumo, ótima história: crua e memorável. Recomendo a leitura.

2° Livro: O Inimigo de Deus

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Dica de Leitura: Orlando – Virgínia Woolf

Surpreendente!

“Porque amava a literatura tanto quanto a sua própria vida”.

Essa foi a minha primeira leitura de Virginia Woolf e confesso foi bastante desafiadora. Não é o tipo de leitura que te prende do começo ao fim, mas a narrativa é muito poética e aborda temos muito profundos, importantes, e extremamente atuais. Nunca tinha lido nada a respeito do livro, o que me deixou muito feliz pois cheguei ao ápice da história totalmente despreparada e isso tornou tudo ainda mais interessante.

A escolha de ler esse livro se deu quando vi uma chamada de leitura coletiva do blog Literature-se e como já queria ler algo da autora há tempos resolvi aceitar. No projeto, o intuito era ler 10 páginas do livro por dia o que consegui fazer nos 10 primeiros dias, e depois li o restante do livro em apenas um dia e infelizmente, fora da data final do projeto. Mas fico feliz de ter terminado e finalmente lido uma obra dessa autora fenomenal.

“A memória é a costureira, e costureira caprichosa. A memória faz a sua agulha correr para dentro e para foram, para cima e para baixo, para cá e para lá. Não sabemos o que vem em seguida, o que virá depois”.

O subtítulo do livro é: uma biografia, portanto a história é narrada pelo seu biógrafo fictício e nos conta a vida de Orlando a partir de seus 16 anos. Orlando é um a rapaz nobre, muito bonito, que adora a natureza e é dado a escrever poemas e tem talento para isso. É bastante orgulhoso do passado de sua família, composta por guerreiros, e participa de muitos momentos importantes da história dos países por onde passa no decorrer do livro.

E aí está uma coisa fantástica e muito interessante que me dei conta tardiamente nesta história. Orlando nasceu no século XVI, mas quando faz 30 anos já é meados do século XIX e o livro termina no século XX. Temos então um cenário de fundo que se passa por mais de 300 anos de história, sendo que a vida de Orlando é contata até os seus 36!

 “Não seria exagero dizer que saía do almoço com trinta anos, e voltava para o jantar com cinquenta e cinco, pelo menos. Algumas semanas acrescentaram um século à sua idade; outras, não mais de três segundos, o máximo”.

Como se não bastasse, não é só esse fato que torna Orlando uma obra surpreendente! Quando está em Constantinopla, exercendo seu trabalho como Embaixador, Orlando dorme por 7 dias seguidos e quando acorda, se transformou numa MULHER!! E esse sem sombra de dúvidas é o momento mais impactante e importante do livro. A mudança não se dá apenas na troca de sexo (coisa que acontece de forma natural e é aceita por Orlando com uma tranquilidade assustadora), mas na percepção da personagem em relação a vida.

A partir desse ponto, muitos temas importantes e profundos são tratados quando Orlando, agora uma mulher, começa a perceber os dissabores e dificuldades que antes não tinha sendo homem. É possível notar isso em suas reflexões…

“A que estranha situação chegamos quando toda a beleza de uma mulher tem que ser mantida coberta para que um marinheiro não caia do mastro principal”

“O homem tem a mão livre para pegar a espada, a mulher deve usar a sua para evitar que os cetins lhe escorreguem dos ombros”

“O homem encara o mundo de frente, como se tivesse sido feito para seu uso e de acordo com o seu gosto. A mulher lança-lhe um olhar de esguelha, cheio de sutileza e até de desconfiança. Se usassem as mesmas roupas, é possível que sua maneira de olhar viesse a ser a mesma”.

Além disso trata de temas como: casamento, gravidez, questões de gênero, patriarcado.

Simplesmente fantástica a forma como todas essas questões profundas e complicadas são tratadas de forma leve e até mesmo icônica na narrativa do biógrafo fictício que acompanha a busca de Orlando pela felicidade e sentido na vida. Me identifiquei muito com a personalidade de Orlando (desde quando ainda era homem e depois, quando se transformou em mulher) e seu amor pela literatura, pela solidão, pela natureza e os animais. Vale ressaltar a escrita poética, sensível e belíssima de Virginia Woolf, fiz inúmeras marcações!!

“Por isso a sociedade é, ao mesmo tempo, tudo e nada. A sociedade é a mais poderosa mistura do mundo”.

Leitura super recomendada!!!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
SERVIÇO
Blog: http://blogentreaspas.com
Instagram: @blog_entreaspas
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Dica de Leitura: A Elegância do Ouriço – Muriel Barbery

“[…] afinal, talvez seja isso a vida: muito desespero, mas também alguns momentos de beleza”.

Eu amo citações, e esse livro foi um banquete real em relação a isso. Marquei tantas páginas com post-it coloridos que nem soube quais citações escolher para esta resenha. Este livro ficou parado na estante da minha casa por no mínimo cinco anos. Eu queria muito lê-lo, mas sempre tinha algum outro que acabava entrando na frente. Por fim, depois de ver duas amigas queridas falando muito bem dele, eu decidi começá-lo e e já no primeiro capítulo fui pega por uma citação estonteante: “Como sempre, sou salva pela incapacidade dos seres humanos de acreditar naquilo que explode as molduras de seus pequenos hábitos mentais”. Ela foi proferida pela protagonista da história, Renée Michel que é a concierge (zeladora) de um prédio nobre em Paris. Segundo a própria, ela é “viúva, baixinha, feia, gordinha”, tem calos nos pés e em certas manhãs, um bafo de mamute. Sra. Michel não estudou, sempre foi pobre, discreta e insignificante. Ou isso, é o que ela pensa de si mesma.

“Como raramente sou simpática, embora sempre bem-educada, não gostam de mim, mas me toleram porque correspondo tão bem ao que a crença social associou ao paradigma da concierge, que sou uma das múltiplas engrenagens que fazem girar a grande ilusão universal de que a vida tem um sentindo que pode ser facilmente decifrado”.

Essa maravilhosa senhora, na verdade, revela por trás da fachada de concierge ranzinza e sem cultura, uma apaixonada por boa leitura, música clássica e filmes antigos. Esconde esse fato, vamos descobrir muitas páginas depois, para sobreviver a classe da nobreza a qual tem a “grande ilusão universal de que a vida tem um sentido que pode ser facilmente decifrado”. E em seu esconderijo particular, lê Tolstoi, ouve Mozart, come chocolate amargo e toma chá. Eu me apaixonei pela Sra Michel na primeira citação que tocou meu coração. Ela tem um gato gordo, apenas uma amiga chamada Manuela e a curiosidade e paixão pela leitura que a faz especial, mas não aos olhos dos moradores do prédio onde ela tão servilmente trabalha há 27 anos.

“Acho que só há uma coisa para fazer: encontrar a tarefa para a qual nascemos e realiza-la o melhor possível, com todas as nossas forças, sem complicar as coisas e sem acreditar que há um lado divino na nossa natureza animal”.

O livro é dividido em duas pessoas que narram os acontecimentos, a Sra. Michel e Paloma, a encantadora criança de 12 anos que não se encaixa em sua família nobre e decidiu que vai se suicidar no dia do seu aniversário, pois se recusa a seguir o destino que lhe está traçado pela sociedade: casar-se com um homem rico e criar uma família tão vazia quanto a própria. Ela vai narrando em vários “pensamentos profundos” como chama, o dia a dia em sua casa, e o que pensa acerca de vários acontecimentos. É então que se nota a afinidade de pensamentos dela com a Sra. Michel e nos faz esperar ansiosos o dia em que as duas vão se descobrir e dividir suas opiniões e críticas a sociedade alienadora. Não posso deixar de mencionar também a chegada de um novo morador, o Sr. Ozu, sorridente e misterioso e que traz um novo brilho ao romance quando se mostra um profundo conhecedor das pessoas e consegue visualizar suas personalidades apesar das aparências.

“Fico pensando se não seria mais simples ensinar desde o início às crianças que a vida é absurda. Isso privaria a infância de alguns bons momentos, mas faria o adulto ganhar um tempo considerável…”.

É um livro delicioso, uma crítica a sociedade e um convite ao pensamento, mas em tom humorado, filosófico e repleto de belíssimas palavras. Como diz a própria quarta capa, o livro nos leva a refletir que nenhuma vida vivida a fundo deveria evitar: o tempo e a eternidade, a justiça e a beleza, a arte e o amor. O tipo de livro que faz pensar, sonhar, refletir. Que emociona, que faz rir, que faz chorar. O tipo de livro que me encanta.

“A eternidade nos escapa”.

Não poderia deixar de colocá-lo entre os favoritos e de recomendá-lo a todos aqueles que queiram encontrar “um sempre no nunca”. A beleza neste mundo.

SUPER recomendo a leitura!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
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Dica de Leitura: A Garota no Trem – Paula Hawkins

Há muito tempo um livro não me prendia tanto a leitura e isso me deixou muito feliz! Eu li o livro em praticamente um dia. Porque a primeira vez eu li até a página quarenta, na segunda vez que peguei o livro, eu terminei. Fui dormir duas horas da manhã porque era impossível parar a leitura, eu precisava continuar. 

“Nunca entendi como as pessoas podem negligenciar com tanta frieza os danos que causam ao seguir o que manda o coração. Quem foi que disse que fazer o que manda o coração é uma coisa boa? É puro egocentrismo, um egoísmo de querer ter tudo.”

A narrativa dessa autora é fantástica, embora eu não seja uma grande fã de livros escritos em primeira pessoa. Mas a forma como ela vai descrevendo os acontecimentos tanto reais, quanto os que se passam nas cabeças das personagens, é muito envolvente e apaixonante e foi isso que me prendeu a leitura. Isso e o fato de ser um romance mais adulto e psicológico e não tão adolescente. Quando ouvi falar do livro/filme, imaginei algo totalmente diferente do que li e depois assisti (sim, já corri assistir ao filme assim que terminei o livro). 

A história é narrada por três personagens, um recurso que gosto bastante pois deixa tudo mais envolvente e com gostinho de quero mais. Além de te dar três visões diferentes da mesma história, partindo das vivências de cada uma das personagens. Acho isso fantástico unido ao recurso da narrativa em primeira pessoa. Como disse no início, não sou fã, mas quando é bem feito, fica fantástico. 

“De vazio, eu entendo. Começo a achar que não há nada a se fazer para preenchê-lo. Foi o que percebi com as sessões de terapia: os buracos na sua vida são permanentes. É preciso crescer ao redor deles, como raízes de árvore ao redor do concreto; você se molda a partir das lacunas.”

O enredo gira em torno de uma mulher na faixa dos 35 anos, que pega todos os dias o trem até Londres para ir e voltar do trabalho. Ela é a garota no trem e se chama Rachel. Nessa trajetória de ida e volta, ela observa as casas que ficam próximas a linha do trem, e como é muito criativa, cria algumas histórias em sua cabeça para algumas das pessoas que sempre observa da janela. Entre essas casas, está a casa em que ela morava com o ex-marido, Tom. Eles se divorciaram e ele mora na casa com a atual esposa e recém-nascida filha. Rachel ainda não aceitou o divórcio e sofre muito com tudo que tem acontecido. Ela se tornou alcoólatra e sempre acaba fazendo algumas bobagens como ligar para o ex-marido ou ir até a casa dele. Eu me apaguei demais a essa personagem e senti muito as suas dores, é bastante triste a situação em que ela se encontra e é impossível não se envolver. 

“Mas acabei me tornando uma pessoa triste, e a tristeza cansa depois de um tempo, tanto para quem está triste como para todo mundo em volta.”

A segunda personagem é uma mulher que a Rachel observa do trem e cria em sua cabeça que vive um casamento maravilhoso com o marido. Ela dá a essa mulher o nome de Jess e ao seu marido de Jason e fica sempre os observando com um misto de felicidade e inveja pelo que tem e ela acredita ser o amor verdadeiro que todos sonham. A terceira personagem é a nova esposa de Tom, Anna. Ela vive um casamento perfeito, com a filha perfeita na casa perfeita que a Rachel montou. Confesso que tive ódio de Anna por muito tempo durante a leitura. 

Enfim, em um determinado momento do livro uma dessas personagens some e você não sabe se ela viajou, fugiu, foi assassinada, se matou, enfim… E principalmente você não sabe quem fez algo pra ela ou com ela para que ela tenha sumido dessa forma e a partir daí é impossível parar de ler e não querer descobrir o final. Que diga-se de passagem, foi um desfecho ótimo.

“E se aquilo que procuro não puder ser encontrado? E se simplesmente não for possível?”

Li algumas resenhas em que as pessoas não curtiram o final e eu consigo entender o motivo, mas pra mim isso não mudou em nada a riqueza da narrativa dessa história fantástica. Amei a narrativa, adorei a construção das personagens, mas gostei principalmente do que esse livro traz de reflexão sobre a vida, sobre acontecimentos que achamos tão terríveis e que as vezes são nossa libertação de algo pior, e ainda mais importante que isso, uma reflexão sobre a natureza humana e como as aparências enganam e as pessoas nem sempre são aquilo que imaginamos.

Recomendo demais a leitura!!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

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Dica de Leitura: Não Me Abandone Jamais – Kazuo Ishiguro

NUNCA MAIS ESQUECI!

“Quando a vi dançando aquele dia, enxerguei uma outra coisa. Enxerguei um novo mundo chegando muito rápido. Mais científico, mais eficiente, é verdade. Mais cura para as velhas doenças. Muito bem. Mas um mundo duro, um mundo cruel. E vi uma menina novinha, de olhos bem fechados segurando no colo o mundo antigo e bom de antes, o mundo que ela sabia, lá no fundo, que não poderia continuar existindo, e ela segurando esse mundo no colo e pedindo pra ele não deixá-la partir… Aquela cena me partiu o coração. Nunca mais esqueci”.

Eu vi o filme primeiro. Em 2010. Assim que foi lançado. Lembro de ter ficado olhando para a parede a minha frente uns bons minutos depois que o filme acabou sem saber o que fazer. Sem saber como é que se vive depois daquilo, de verdade. Uma cena específica do filme, acabou comigo e juro que não é spoiler, pode ler: estrada vazia, faróis ligados, Tommy desce do carro vai até a frente dos faróis e começa a berrar e berrar até que cai no chão e Kathy desce do carro e o abraça. Foi aí, nesse ponto que eu perdi minha alma. Eu sei que está parecendo dramático, mas é. É mesmo. O assunto é sério, é dramático, é atual e distópico ao mesmo tempo. Ele traz à tona muitos questionamentos e reflexões. E medos. O filme abriu um buraco que eu tinha que preencher com a leitura do livro que ainda não tinha no Brasil. Mas eu PRECISAVA DELE.

“Não consigo parar de pensar nesse rio, não sei onde, cujas águas se movem com uma velocidade impressionante. E nas duas pessoas dentro da água, tentando se segurar uma na outra, se agarrando o máximo que podem, mas no fim não dá mais. A corrente é muito forte. Eles precisam se soltar, se separar. É assim que eu acho que acontece com a gente. É uma pena, Kath, porque nós nos amamos a vida toda. Mas, no fim, não deu para ficarmos juntos para sempre.”

Quando finalmente consegui ler, me apaixonei ainda mais pelo tema e pela história. Se eu já tinha gostado do filme, o livro era (que surpresa, né gente? rs) ainda melhor. A escrita de Kazuo é delicada e começa tão branda, tão tranquila, como se fosse um diário de memórias de Kathy H. e você vai se apaixonando por ela, pela forma como ela vai se lembrando dos dias no instituto, da amizade, de Tommy, das relações, dos professores, das sensações. É como uma amiga que você faz ao longo da leitura, que te dá a mão e vai te levando por um passeio tranquilo e você vai se deixando levar.

Ao longo da leitura aparecem algumas palavras como doador, cuidadora e você fica se perguntando o que seriam exatamente essas coisas, mas a verdade chega de mansinho e acho que é isso que impacta ainda mais. Você não está preparado pra verdade quando ela chega. E é um soco no estômago, como diria tão bem Clarice Lispector (sobre outro assunto, mas cabe bem aqui).

“Certeza de que estão apaixonados? E como é que você sabe disso? Então acha que o amor é coisa assim tão simples?”

Quando você descobre o que é ser um doador, uma cuidadora, já é tarde demais. Você se envolveu tanto na narrativa, com os personagens, que não tem mais jeito de voltar atrás. E a agonia também é sua, aliás, mais sua. A apatia geral te dá desespero e você se vê querendo entrar lá e chacoalhar aquele mundo de pessoas que no fundo não querem ser chacoalhadas, que aceitaram de uma forma ou de outra um sistema tão bem amarrado, tão bem planejado que não há uma forma de escapar… Nem vontade.

Eu sei que o que estou escrevendo parece confuso, mas não posso escrever mais que isso sem sem estragar a experiência literária de quem for ler esse livro pela primeira vez. É, falando bem basicamente, uma história de amor e perdas, com um plano de fundo digno de uma ficção científica e uma distopia capaz de remexer com tudo dentro de você! A narrativa é misteriosa, você sente que algo precisa e vai ser revelado, mas nada te prepara o suficiente para a verdade.

“É como passar diante de um espelho pelo qual passamos todos os dias de nossas vidas e de repente perceber que ele reflete outra coisa, uma coisa estranha e perturbadora.”

Os próprios protagonistas só entendem completamente o que lhes acontece quando não há mais como voltar atrás. Qual o motivo de viverem no internato? Como foram escolhidos pra isso? O que o futuro guarda pra eles? Tudo isso vai ser respondido na narrativa extremamente bem construída de Ishiguro até a ultima página.

Fico na esperança de passar pra vocês o quanto esse livro me tocou, como pessoa. As sensações e reflexões que ele me trouxe como ser humano. O quanto isso não é tão distante de realidades que já vivenciamos em nosso planeta de outras formas, mas que estão aí e não enxergamos. Também estamos apáticos. E como eu adoro esse tipo de livro/filme que nos tira da zona de conforto e balança tudo que a gente tem por dentro!

“Porque em algum lugar, lá no fundo, uma parte de nós permaneceu igual: receosos do mundo em volta e — por mais que nos envergonhássemos disso — incapazes de deixar o outro partir de uma vez por todas.”

SUPER recomendo a leitura!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

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Dica de Leitura: A Menina que Roubava Livros – Markus Zusak

É só uma pequena história, na verdade, sobre, entre outras coisas:
. uma menina
. algumas palavras
. um acordeonista
. uns alemães fanáticos
. um lutador judeu
. E uma porção de roubos
Vi três vezes a menina que roubava livros”.

 Esse livro quase desbancou o meu favorito “O morro dos ventos uivantes”. Ficou ali em segundo por um décimo! É perfeito, suave e trágico ao mesmo tempo!

“Quando a morte conta uma história, você deve parar para ler”. 

A história se passa nos anos entre 1939 e 1943, na época do Holocausto. Liesel Meminger encontrou a Morte neste período por três vezes e saiu viva das três ocasiões. A Morte, de tão impressionada, decidiu contar a história de Liesel e nos presenteou com esse livro mágico e encantador.

“Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber”.

Desde o início da vida de Liesel, ela precisou achar formas de se convencer do sentido de viver. Assistiu seu irmão morrer no colo da mãe e foi largada pela mesma aos cuidados de pessoas estranhas: Hans e Rosa Hubermann, um pintor desempregado e uma dona de casa rabugenta. Trazia escondido em sua mala, um livro: O Manual do Coveiro. O rapaz que enterrara seu irmão deixara o livro cair na neve por distração e este foi o primeiro dos vários livros que Liesel roubaria ao longo dos quatro anos seguintes.

“Uma definição não encontrada no dicionário: ‘Não ir embora’: Ato de confiança e amor, comumente decifrado pelas crianças”.

Foi essa paixão pelos livros somada ao amor das pessoas que foram colocadas em seu caminho que salvaram a vida de Liesel naquele tempo de horror, quando a Alemanha estava sendo transformada diariamente pela guerra. Seu gosto pelos livros e a sede por conhecimento foram o sentido que faltava em sua vida e em mais de uma ocasião a salvou da solidão, da tristeza e até mesmo da morte.

São inúmeros os momentos extremamente emocionantes desse livro onde a força do amor e a importância das palavras são extremamente ressaltados. A história deste livro mescla as descobertas e peripécias da menina Liesel de 9 anos e os riscos que a família corre quando Hans decide esconder um judeu, amigo seu, no porão de sua casa. Como testemunha desses acontecimentos, temos a Morte, a narradora dessa história que descreve cada situação com tamanha poesia e emoção que é impossível não se sentir parte da história, sofrer e sorrir ao mesmo tempo.

Impossível também é não se apegar aos personagens maravilhosos criados por Zusak. Ressalto meu imenso carinho por Hans e Rosa, os pais adotivos de Liesel e suas formas extraordinárias de demonstrar amor e por Rudy, melhor amigo de Liesel e o namorado que nunca teve.

Simplesmente inspirador, triste e maravilhoso. Leitura recomendadíssima.

Leitura mais do que recomendada, essencial! Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

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Dica de Leitura: O Último Trem de Hiroshima – Charles Pellegrino

“Não deveríamos deixar a guerra acontecer nunca mais”.

Nunca mais. Por motivo algum e em hipótese alguma. A leitura deste livro foi uma das mais difíceis para mim até hoje. Sofri muito com os sobreviventes e suas histórias horripilantes daquele trágico 06 de agosto de 1945. Tive vergonha de, até então, ter feito parte das pessoas que “em número cada vez maior, haviam se tornado complacentes desde o término da constante e amedrontadora rivalidade nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética” Tive e confesso “uma espécie de amnésia (que) tinha começado a afetar a civilização, uma amnésia particularmente perigosa, na qual as pessoas começavam a esquecer o que as bombas atômicas realmente fazem”.

A partir desta leitura, nunca mais! Nunca mais vou me esquecer disso. E devo agradecer a Charles Pellegrino e sua narrativa impressionante, impecável e envolvente. Demorei demais para ler porque o livro é pesado e choca. Não sei se sou muito sensível a estas catástrofes, mas tive inúmeras vezes que fechar o livro, respirar fundo para poder continuar. Desde o começo da leitura, olho para o céu, as árvores e as pessoas ao meu redor com outros olhos. Fico tentando imaginar como seria se de repente, em questão de três segundos, tudo isso virasse vapor e desaparecesse deixando um rastro de destruição irreversível.

O livro com certeza nos faz refletir e muito. Conta, através de diversos depoimentos e histórias impressionantes como foi para aquelas pessoas o horror da bomba atômica. Muito bem embasado, Pellegrino conseguiu transmitir em palavras os impressionantes milésimos de segundos de cada instante, desde o lançamento da bomba em Hiroshima, até a destruição ainda maior em Nagasaki.

As explicações minuciosas do que a bomba fez com as pessoas são impressionantes e terríveis. E arrancam lágrimas, perturbam o sono. Pelo menos, assim foi comigo. E pensar que Hiroshima era uma linda cidade pequena do Japão que enquanto todas as outras estavam sendo bombardeadas e atacadas, foi totalmente poupada. Seus habitantes, ingenuamente imaginavam que era por sua beleza, quando na verdade o pensamento era de que não adiantaria nada testar uma bomba nuclear em um alvo já destruído.

Acima de todo os planos políticos e militares envolvendo o lançamento de “little boy” (apelido com o qual a Bomba Atômica foi batizada), é ainda mais impressionante verificar que ela não trouxe perdas somente materiais e físicas:

“As fissuras que se formaram no hipocentro ainda ficaram presentes muitos anos depois. Mas eu não estou falando sobre rachaduras no chão, disse Paul Nagai. Eu me refiro às rachaduras invisíveis nas relações pessoais dos sobreviventes daquela desolada terra atômica. Estas fendas nos laços de amizade e amor não fecharam com o tempo; ao contrário, parecem se tornar cada vez maiores e mais profundas. De todo o dano que a bomba atômica causou, esse é de longe o mais cruel”.

O que fica dessa história é a mensagem de que a guerra não pode voltar a acontecer nunca mais. Que a questão de quem lançou a bomba e os motivos porquê isso aconteceu são irrelevantes. A coisa importante é nunca esquecer as consequências, fissuras e traumas que essa bomba causou. Cicatrizes na terra e na vida das pessoas que jamais se fecharão.

O que fica é a necessidade de o ser humano entender que “não se pode fazer isso nunca mais, por motivo algum”.

Leitura mais do que recomendada, essencial! Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

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Dica de Leitura: O Olho Mais Azul – Toni Morrison

“Cada livro nos abre um horizonte, uma reflexão, e é um eterno lembrete de que a vida pode ser múltipla, inexata, complexa”. Essa frase foi enviada a TAG por uma leitora, Renata Sanches, e está na revistinha que acompanha esse livro. Coloquei ela nessa resenha porque não poderia escrever isso de forma melhor e o tanto que essas palavras são verdadeiras, principalmente ao terminar de ler esse livro… A vida é múltipla, inexata, complexa… na crueza dos dias, não segue regras e padrões, acontece. São tantas vidas, inúmeras possibilidades e sentimentos!

“Entraram devagar na vida pela porta dos fundos”.

Esse é o primeiro livro que li dessa autora e fui arrebatada por sua narrativa. Ela conseguiu me fazer chorar na página 22 do livro com uma imagem que não sei se esquecerei tão cedo. Uma frase, tão dolorida e ao mesmo tempo tão doce, que tocou no fundo da minha alma…

“Assim, quando penso em outono, penso em alguém que tem mãos e que não quer que eu morra”.

Assim, solta, talvez não tenha o impacto que teve em mim ao final de algumas outras descrições, mas só de escrevê-la me emociono de novo, ao lembrar do que li. Depois disso foi só desconforto e palavras que não conseguia parar de ler. O livro é dividido por estações e conta muitas histórias em poucas páginas, mas a principal é a da menina Pecola Breedlove que reza todas as noites para ter olhos azuis.

“Toda noite sem falta, ela rezava para ter olhos azuis. Fazia um ano que rezava fervorosamente. (…) Levaria muito, muito tempo para que uma coisa maravilhosa como aquela acontecesse. Lançada dessa maneira na convicção de que só um milagre poderia socorrê-la, ela jamais conheceria a própria beleza. Veria apenas o que havia para ver: os olhos das outras pessoas”.

Pecola é invisível para a sociedade e a comunidade que vive. Invisível não é a palavra, o problema é que ninguém está disposto a vê-la com humanidade. É zombada, rejeitada, desprezada, violentada. Ela sabe que o problema é a sua aparência, sua pele negra e seus cabelos crespos, e acredita que sua única solução seja ter olhos azuis, como os das bonecas, das mulheres brancas que são invejadas, elogiadas, lindas e amáveis. Acompanhamos seus passos nessa busca delirante pelo olho mais azul, pela aceitação, por uma realidade que não seja só dor, como a que unicamente ela conhece.

 “O amor nunca é melhor que o amante. Quem é mau, ama com maldade, o violento ama com violência, o fraco ama com fraqueza, gente estúpida ama com estupidez, e o amor de um homem livre nunca é seguro. Não há dádiva para o ser amado. Só o amante possui a dádiva do amor. O ser amado é espoliado, neutralizado, congelado no fulgor do olho interior do amante”.

Como bem diz, Djamila Ribeiro, no prefácio desta edição “são letras que rasgam, mas por incrível que possa parecer você vai gostar de ser cortado, reinventado”. Esse livro é uma forte reflexão sobre a desigualdade, o preconceito, os padrões impostos e vale muito a leitura. Essencial. Vale também ressaltar que Toni Morrison foi a primeira mulher negra a ganhar um Nobel de Literatura em 1993 e que O Olho mais azul, escrito em 1970 conta a história de outros tempos, outra época, mas que é extremamente atual como se ainda fosse hoje, infelizmente.

Fica um exercício para nossa reflexão do porquê. Recomendo demais a leitura, o corte e a reinvenção!

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Dica de Leitura: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres

Dia 25 de julho se comemora o dia Nacional do Escritor. Esse dia foi escolhido pelo ex-ministro da Educação e Cultura Pedro Paulo Penido, em 1960, para homenagear escritoras e escritores brasileiros. A escolha dessa data deve-se à realização do I Festival do Escritor Brasileiro, patrocinado pela União Brasileira de Escritores (UBE), que ocorreu em 25 de julho de 1960.

Para comemorar essa data, escolhi um livro da minha escritora favorita, Clarice Lispector para a Dica de Leitura dessa semana. Essa autora nacional maravilhosa que escreveu ao Jornal do Brasil que “não se ‘faz’ uma frase. A frase nasce”, e que em resposta à pergunta “Por que você escreve” na única entrevista para a televisão que deu na vida, disse: “Por que você bebe água?”. Clarice era assim, nasceu pronta, já escritora e nos presenteou com livros que trazem reflexão e aprendizado, principalmente sobre nós mesmos. Nos faz questionar, põe o dedo na ferida e nos tira do lugar comum.

 “Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente”.

Este foi o primeiro romance de Clarice que eu li e confesso que amei logo de cara. A narrativa é simples e deliciosa e é impossível não se apaixonar pelas personagens tão extraordinariamente criadas por Clarice. A história vai te envolvendo aos poucos e você se vê totalmente cativado pelas dúvidas e questionamentos de Lóri, a personagem principal, que está perdida pois não entende direito o que é “ser”.

Ulisses, seu namorado e professor de Filosofia, tenta ajudá-la a entender esse mistério e como é agradável o prazer de simplesmente existir. Durante todo o desenrolar da história, ele a desafia para refletir sobre os acontecimentos, rotineiros ou não, de sua vida e a ajuda a descobrir quem ela é, o que gosta, quais são as atitudes que lhe dão prazer, o que a desagrada.

Clarice propõe a reflexão sobre diversos conflitos emocionais e usa de uma liberdade de escrita maravilhosa, afinal uma das características famosas desse livro é que ele começa com uma vírgula e termina com dois pontos.

E há tanto mais a dizer sobre esse livro, mas minhas próprias palavras não seriam suficientes, então escolhi um trecho da própria autora que falará por si só da qualidade narrativa e beleza indescritível deste livro:

“Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.

Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.

Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia”.

Leitura super recomendada!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
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COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: Tartarugas até lá embaixo – John Green

Um pouco triste, mas um TUDO de vida real.

Terminei esse livro extremamente emocionada. Sei que John Green é visto por muitos como escritor de historinhas de adolescente e, no fim, é mesmo isso que ele é, mas eu não vejo isso como negativo. Eu também tenho um pouco de preguiça de alguns romances adolescentes muito bobinhos, mas definitivamente não é o que acontece com John Green. Ele sempre traz algum assunto bem profundo junto com a adolescência e nos envolve de alguma forma, nos fazendo refletir muito sobre as dores e problemas do outro. John Green escreve sobre empatia. E precisamos MUITO disso hoje em dia.

“Qualquer um pode olhar pra você, mas é muito raro encontrar quem veja o mesmo mundo que o seu”.

Neste livro, o assunto é transtorno de ansiedade e TOC. É uma enorme angústia mergulhar junto com Aza Holmes, nossa protagonista, em suas espirais de pensamentos que vão ficando cada vez mais fortes e acabam levando-a a acreditar em certas coisas num grau muito elevado, excluindo-a do convívio com as pessoas, afastando-a dos mais queridos e deixando-a completamente atordoada em situações que para qualquer outra pessoa seriam coisas simples, que sequer chegariam a pensar sobre. E, se você já passou por algum tipo de dor emocional, mesmo que em graus mais amenos, vai ser impossível não se reconhecer em algumas dessas situações.

“No fundo ninguém entende o que se passa com o outro. Está todo mundo preso dentro de si mesmo”.

John Green nos presenteia com uma narração clara dos pensamentos da protagonista, da forma como eles começam e até onde a levam, da briga interna dela com os pensamentos, de como as pessoas ao redor lidam com isso, pensam sobre isso. São diversas visões diferentes do mesmo problema que faz com que você mergulhe intensamente neles e é impossível não se sentir ligado a isso de alguma forma, e refletindo sobre como tantas pessoas devem estar passando por isso todos os dias e nem desconfiamos, e as vezes somos até rudes ou intolerantes com as pessoas, por não pensarmos nas lutas internas que devem estar travando. Mostra também como é difícil para os que estão muito próximos saber como ajudar, e o que fazer pra amenizar essas crises e situações. Ambos os lados sofrem muito.

“Estar vivo é sentir saudade”.

Aza tem uma melhor amiga, uma mãe muito amorosa e um velho amigo de infância que tentam o tempo todo ajudá-la nesses conflitos. Acho que o mais importante desse livro é mostrar que, principalmente nas doenças emocionais e mentais, sempre é preciso buscar ajuda profissional. Aza também tem uma analista muito querida que durante todo o processo vai ajudando-a a entender melhor o que está acontecendo. Fica a importante mensagem que não estamos sozinhos, e pedir ajuda não é uma fraqueza, nem vergonhoso, pelo contrário, é um ato de coragem e amor próprio.

Pra mim a leitura desse livro foi emocionante também porque ganhei de um amigo muito querido, Carlos Rogério Sartori, num momento em que passei por algo emocional muito difícil em minha vida. Tanto que abandonei, por um período, até mesmo a leitura que é o que eu mais amo fazer na vida. Acabei não lendo o livro na época, pois estava muito dentro da situação e acabei me afastando e me isolando. Mas quando o li, tempos depois, mesmo já estando super bem, me emocionei com o presente, principalmente porque foi lindo que esse amigo tenha tentado me ajudar, além de tantas outras formas, através da literatura. A literatura salva. Ambos acreditamos nisso.

O livro tem um desfecho que está longe de ser um final feliz e como a própria Aza nos diz no livro…. “O problema dos finais felizes é que ou não são realmente felizes, ou não são realmente finais”. Foi o final que o livro poderia e deveria ter, dentro de todos os acontecimentos e de todos os fatos, era o melhor que poderia ser… Nada 100% resolvido, um pouco triste, um TUDO de vida real. Ah, e o título do livro é genialmente explicado no finalzinho da história! Fica, como disse na resenha toda, a necessidade de aceitação do problema que o livro nos demonstra, e que precisamos muito sim, de ajuda, de amigos, de pessoas que realmente se importem. E lembrar sempre, que apesar de não conseguirmos enxergar que alguém se importa quando estamos dentro da crise, algumas pessoas realmente se importam e estas são as que devemos manter ao nosso lado.

Recomendo muito a leitura. A quem já passou por algo parecido, àqueles que convivem com alguém que está passando por algo parecido e a todos! Aprender e refletir nunca é demais.

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
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