COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: Olhai os Lírios do Campo – Érico Veríssimo

Este foi o primeiro livro que li de Erico Verissimo e foi numa época que não era muito fã de literatura nacional e por isso ainda desconhecia muitos autores consagrados de nosso país. O que posso dizer é que gostei muito da narrativa de Erico e que ele me incentivou a procurar mais sobre a nossa literatura. De alguma forma, Olhai os Lírios do Campo me lembrou um pouco do livro A insustentável Leveza do Ser, no sentido de nos fazer refletir sobre os diversos aspectos da natureza humana.

O título do livro foi o que me chamou mais atenção. É lindo e poético e bem no fim do livro fica claro a escolha do autor…

“Considerai os lírios do campo. Eles não fiam nem tecem e no entanto nem Salomão em toda a sua glória se cobriu como um deles”.

É a procura pelo que é verdadeiramente essencial na vida. A história gira em torno de Eugênio fontes, uma pessoa infeliz e marcada por experiências humilhantes de uma infância pobre. Eugênio cria um complexo de inferioridade que o acompanha por grande parte de sua vida. Uma das cenas mais marcantes do livro pra mim é quando Eugenio já na faculdade de Medicina e ao redor com alguns amigos, encontra seu pai, o pobre Ângelo:

“Eugênio viu um vulto familiar surgir a uma esquina e sentiu um desfalecimento. Reconheceria aquela figura de longe, no meio de mil… Um homem magro e encurvado, mal vestido, com um pacote no braço, o pai, o pobre Ângelo. Lá vinha ele subindo a rua. Eugênio sentiu no corpo um formigamento quente de mal-estar. Desejou – com que ardor, com que desespero! – que o velho atravessasse a rua, mudasse de rumo. Seria embaraçoso, constrangedor se Ângelo o visse, parasse e lhe dirigisse a palavra. Alcibíades e Castanho ficariam sabendo que ele era filho dum pobre alfaiate que saía pela rua a entregar pessoalmente as roupas dos fregueses… Haviam de desprezá-lo mais por isso. Eugênio já antecipava o amargor da nova humilhação. Olhou para os lados, pensando numa fuga.  (…) Hesitou ainda um instante e quando quis tomar uma resolução, era tarde demais. Ângelo já os defrontava. Viu o filho, olhou dele para os outros e o seu rosto se abriu num sorriso largo de surpreendida felicidade. Afastou-se servil para a beira da calçada, tirou o chapéu. – Boa tarde, Genoca! – exclamou.  O orgulho iluminava-lhe o rosto. Muito vermelho e perturbado Eugênio olhava para a frente em silêncio, como se não o tivesse visto nem ouvido. Os outros também continuavam a caminhar, sem terem dado pelo gesto do homem”.

No dia de sua formatura, Eugênio conhece melhor a estudante Olívia, uma garota cheia de sensibilidade e serenidade e com quem acaba criando um laço de amizade e depois torna-se seu amante. Para Eugenio, estar com Olívia era uma espécie de porto-seguro para onde ele ia quando se sentia estressado e estava em sofrimento. Mesmo assim, acaba casando-se com uma mulher rica e da alta sociedade, pois odeia a pobreza. Casou-se sabendo de seu erro, mas leva o casamento em frente por três anos. Neste período Eugênio deixa de ser médico e trabalha na firma do pai de sua esposa. A ambientação do romance é de uma época onde o capitalismo devasta a vida das personagens. A busca pela riqueza, status e prazer é a moda da época e ninguém se importa mais com os sentimentos.

Aos poucos e após um reencontro com Olívia onde ele descobre que tem uma filha, Eugênio começa a enxergar que fez a escolha errada e começa a dar alguns passos em direção a uma nova vida. No convívio puro e feliz com Anamaria, sua filha e Olívia, Eugênio descobre finalmente que dinheiro não traz felicidade, mas ainda assim não é capaz de dar o passo que o faria separar-se de sua confortável situação na casa do pai de sua esposa. Apenas um trágico acontecimento acaba por fazer Eugênio acordar de verdade e a partir de então, sua vida volta-se para a feitura do bem e a busca pela paz e o desenvolvimento pessoal.

A narrativa se divide, portanto, em duas partes, sendo a primeira contando a infância de Eugênio até seu casamento por dinheiro com Eunice e a segunda contando a parte em que Eugênio descobre o verdadeiro sentido de sua vida e inicia uma nova vida. Em ambas as partes, vários personagens e suas misérias pessoais também nos são apresentadas e isso também torna o romance interessante.

“A vida começa todos os dias”.

Gostei de conhecer Erico Veríssimo e sua narrativa desenvolta e rica. Anotei diversas citações lindas e as relações sociais e pessoais apresentadas foram muito bem desenvolvidas. Destaco o namoro de Dora, moça rica e da alta sociedade e Simão, um pobre judeu discriminado por sua raça.

Com certeza, é uma leitura recomendada!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
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Resenha: Assassinato no Expresso do Oriente

Livro: Assassinato no Expresso do Oriente
Autora: Ágatha Christie
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 200
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Não é a toa que Agatha Christie é conhecida como a Rainha do Crime! Ela tem uma mente genial e te envolve tanto na história que é impossível largar o livro antes de saber tudo que aconteceu! Foi o que aconteceu comigo em “Assassinato do Expresso Oriente” que já ficou ali do ladinho de “Não Restou Nenhum”, meu favorito da autora até o momento.

Neste livro que foi lançado em 1932 e um dos livros mais vendidos da autora e que a tornou famosa, Hércule Poirot (meu detetive favorito), estava na Síria onde havia terminado um trabalho e antes de voltar à Inglaterra resolve tirar uns dias de folga para conhecer melhor a antiga Constantinopla (hoje conhecida como Istambul). Porém quando chega ao hotel onde ficaria hospedado, recebe um telegrama de Londres, chamando-o de volta por conta de novas evidências de um caso que ele havia resolvido.

Impossibilitado de curtir seus dias de folga, Poirot embarca no Expresso Oriente, com a ajuda de Bouc, o diretor da companhia de Trem, pois espantosamente o trem está lotado naquela noite de inverno rigoroso. Bouc consegue uma instalação a Poirot na segunda classe, espantando os passageiros que não esperavam viajar ao lado do inteligentíssimo detetive que desvenda casos incomuns. Sabendo da longa viagem, começa a observar e conhecer seus companheiros de viagem e apesar de achar incomum que cada um fosse de um local do mundo, o único que o incomodou e causou má impressão foi o Sr. Ratchett, homem misterioso que o procura dizendo que tem um inimigo querendo matá-lo e que precisa que ele o ajude. Poirot recusa o trabalho e pouco tempo depois o homem é assassinado.

Uma nevasca terrível faz com que o Expresso pare entre a Iuguslávia e a Bosnia e então começam as investigações para descobrir quem matou Ratchett e o porquê. Daqui em diante vamos acompanhando os depoimentos de cada um que estava no trem na noite do fatídico crime e começamos a juntar as pistas na tentativa de descobrir por nós mesmos quem foi o assassino. Mas como sempre, Ágatha é extremamente genial e o desfecho é simplesmente de cair o queixo.

Amei essa história, e fiquei muito impressionada com a forma inteligente com que Ágatha conduz a narrativa para um final fantástico e digno da Rainha do Crime! Super recomendo a leitura.

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: A Retornada – Donatella Di Pietrantonio

“Eu fiquei órfã de duas mães vivas. Uma me entregou quando eu ainda tinha seu leite na língua; a outra quando eu tinha treze anos. Eu era filha de separações, de laços de parentescos falsos ou omitidos, de distâncias. Não sabia mais de quem eu provinha. No fundo, até hoje não sei.”

Meu Deus que livro doído. Tantos sentimentos contidos em tão poucas páginas, é de partir o coração. A protagonista, que não chega a ganhar um nome sendo conhecida por todos como “A Retornada”, ou “A devolvida”, nos conta como se escrevesse um diário, como foi a sua jornada desde que foi levada de volta à casa de sua mãe biológica aos 13 anos e precisou se adaptar a essa nova realidade, sem entender ao certo qual foi o motivo dessa “devolução”.

Nesse novo lar ela precisa aprender a conviver com irmãos que também não entendem o que ela está fazendo ali, com a distância de uma mãe que ela sequer consegue chamar de mãe, a escassez de comida, a sujeira, a violência doméstica, ou seja, a falta total de recursos financeiros e emocionais que é totalmente diferente do universo que ela tinha antes na casa da “mamãe do mar” como ela chama sua mãe adotiva.

“Com o tempo, perdi também a ideia confusa de normalidade e, hoje, ignoro qual lugar seja o de uma mãe. Isso me falta, do mesmo modo que pode faltar saúde, proteção, certezas”.

O ponto forte dessa narrativa é o fato de que a protagonista é tão abandonada que ninguém se dá ao trabalho de explicar nada pra ela, e você se vê tão perdida e tão confusa quanto ela, querendo descobrir quais foram os motivos que a levaram a tal situação. O choque do abandono, que por si só, já é bastante traumático, é só o começo de inúmeras situações terríveis pelas quais ela passa nesse novo lar. Já de início ela se vê obrigada a dividir a cama com a irmã mais nova, um colchão velho com cheiro de mofo e xixi seco que logo ela descobre tem esse cheiro porque a irmã faz xixi na cama todas as noites e ela se vê acordando molhada diversas vezes.

Porém é justamente com essa irmã que um laço afetivo é criado e ambas se apoiam e se defendem nas situações terríveis a que são submetidas dia a dia nesse lar descompensado. Essa ligação bonita entre as duas, que persistirá pela vida toda, é construída aos poucos e aos tropeços, e é um dos poucos, ou talvez o único alento que temos ao longo da leitura.

“Nunca entendi o gesto de uma menina de dez ano que apanhava todo dia, mas queria salvar o privilégio que eu gozava, a irmã intocável chegada há pouco”

E mais uma vez, trago a reflexão sobre a importância do papel do pai. O que acontece aqui é novamente um julgamento extremo sobre essas mães que abandonam essa menina duas vezes, embora de um modo ou de outro, estejam ali e o abandono ainda mais real e palpável pra mim que é o abandono dos pais que jamais a trataram como prioridade. Um livro que traz muitas reflexões e cuja leitura eu super recomendo!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
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Resenha: O Labirinto dos Espíritos

Livro: O Labirinto dos Espíritos
Autora: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Suma das Letras
Páginas: 680
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

“Uma história não tem princípio nem fim, só portas de entrada”.

Eu já começo essa resenha dizendo que jamais escreverei à altura do que esse livro realmente representa. Voltar a ler sobre personagens queridos como Daniel Sampère e Fermín foi simplesmente maravilhoso e ainda mais dentro dessa trama sensacional que culmina a quadrilogia espetacular de amor aos livros iniciada pelo lindíssimo A Sombra do Vento.

Não dá nem pra pensar em como explicar as tantas reviravoltas mesclando presente e passado, personagens antigos e queridos com novos personagens fantásticos e percorrendo caminhos tortuosos até finalmente juntar todas as pontas soltas e fechar a história com maestria. Certo, como já viram, é uma resenha passional. Não consigo ser imparcial quando escrevo sobre essa história porque Zafón me conquistou irremediávelmente.

Confesso que como li os três primeiros livros em seus lançamentos e portanto há bastante tempo, muitos detalhes me escaparam, mas não impediram a minha experiência de leitura pois como bem explicado no início desse livro e na frase que escolhi pra iniciar essa resenha: uma história tem muitas portas de entrada e é possível ler os livros de Zafón separadamente ou fora de ordem pois cada um é uma história em si mesmo.

Neste livro conhecemos a personagem Alícia, que diga-se de passagem entrou pro hall de personagens favoritas da vida. Ela nasceu em Madri e teve a vida salva por Fermín durante a guerra que assolou Barcelona, mas acabam se perdendo de vista e seguem rumos separados. Alicia se torna uma investigadora talentosíssima e sombria e é a ela que a polícia recorre para descobrir sobre o desaparecimento misterioso do ilustre Ministro Maurício Valls. A partir daí somos arrastados, entre idas e vindas ao passado, a uma trama maravilhosa que aos poucos vai unindo os destinos dos nossos personagens queridos e revelando segredos que nunca imaginávamos.

A narrativa especial de Zafón traz o melhor e o pior de seus personagens a tona, nos mostrando a realidade nua e crua da natureza humana. Tudo isso permeado por cenários que vão de lugares sombrios e escabrosos a encantados e belos, além é claro do fato de o leitor estar o tempo todo cercado por citações, personagens e livros, fechando com chave de ouro o encantamento dessa obra. Estou completamente emocionada e envolvida com a história desse livro que recomendo a todos!

Belíssima experiência literária!

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: Não Verás País Nenhum – Ignácio de Loyola Brandão

Angustiante. Impactante. Assustador. São algumas das palavras com as quais eu descrevo essa leitura que me surpreendeu do início ao fim. Este é o primeiro livro de Ignácio de Loyola Brandão que leio e com certeza não será o último. Gostei muito da história e de sua narrativa desenvolta que nos envolve na leitura e torna impossível não querer ir até o final, mesmo que este final pareça horripilante.

O autor nos leva a um futuro terrível e apocalíptico onde bebe-se com naturalidade água reciclada de urina pois os rios secaram e a água do mar está tão poluída que é impossível até mesmo encostar nela; onde visita-se um museu com águas engarrafadas do passado destruído e é possível ouvir o som das cachoeiras já inexistentes e o canto dos pássaros já disimados; onde fez-se uma cerimônia para o corte da última árvore do Brasil, aplaudida e filmada como algo magnífico e onde se luta por um cartão de água e comida e por viver o mais dignamente possível debaixo de um sol escaldante que arranca a pele e deixa as pessoas loucas.

Este livro é um sério alerta do que nos espera no futuro. E um futuro que ao meu ver, não está mais tão longe como imaginamos. O governo durante todo o tempo tenta abrandar as consequências da destruição humana com campanhas publicitárias otimistas que mostram apenas o lado bom das coisas (e mesmo quando esse lado não existe, inventam). Trabalham através da opressão pelos Civiltares e pela massificação através da comida factícia que teria sido criada já com ingredientes que inibem o questionamento e a insatisfação.

“– Lembra-se de quando líamos os livros de Clark, Asimov, Bradbury, Vogt, Vonnegut, Wul, Miller, Wyndham, Heinlein? Eram supercivilizações, tecnocracia, sistemas computadorizados, relativo – ainda que monótono – bem-estar. E, aqui, o que há? Um país subdesenvolvido vivendo em clima de ficção científica. Sempre fomos um país incoerente, paradoxal. Mas não pensei que chegássemos a tanto”.

Muitos trechos chocantes e cenas e situações de arrepiar! Quando o noticiário da TV passa novamente a cerimônia do corte da última árvore no Brasil, Sousa, o protagonista, se recorda de sua infância e lembra quando o avô o levava para assistí-lo derrubar árvores. Me emocionei bastante com o trecho, pois assim como ele, sempre tive a mesma impressão a respeito de uma árvore tombando:

“Quando vi a primeira árvore cair, meu pai estava ao meu lado. O barulho foi tão horrível que nem a presença dele impediu o meu susto. Chorei. Agora penso: teria sido pena? Não, seria racionalizar os sentimentos de uma criança. Me lembro até hoje o horror que foi a árvore tombando. Um gigante desprotegido, os pés cortados, solto de repente, desabando num ruído imenso. Choro, lamento, ódio, socorro, desespero, desamparo. Ao tombar, tive a impressão de que ela procurava se amparar nas outras. Se apoiar em arbustos frágeis, que se ofereciam impotentes.Fracos demais para segurá-la. Porém solidários. Morriam juntos, arrastados, esmagados. Ao mesmo tempo que tentava se apoiar, aquela coisa imensa parecia ter vergonha de se mostrar tão fraca. De ter sido derrubada sem nenhuma reistência. Urrava de ódio. Poderia resistir? Não via como. Na confusão que se estabelecia nela, caía. Arrastando tudo, arrebentando árvores menores, fazendo um barulho que me parecia cachoeira, ou represa estourando.”

Me lembrou muito 1984 e Admirável Mundo Novo, e assim como estes, merece as cinco estrelas pelo alerta e pela mensagem. Precisamos realmente refletir e repensar. Este livro nos dá essa oportunidade e abre nossas mentes para questionamentos e a vontade de querer fugir desse futuro tão horrível. A narrativa de Loyola é tão clara que quase podia ver as cenas acontecendo na minha frente. Admiro muito autores que conseguem nos transportar para os cenários e nos fazem passar pelas vicissitudes das personagens.

Este é o tipo de leitura essencial, além de recomenda!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

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Resenha: Orlando

Livro: Orlando
Autora: Virgínia Woolf
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 234
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Essa foi a minha primeira leitura de Virginia Woolf e confesso foi bastante desafiadora. Não é o tipo de leitura que te prende do começo ao fim, mas a narrativa é muito poética e aborda temos muito profundos, importantes, e extremamente atuais. Nunca tinha lido nada a respeito do livro, o que me deixou muito feliz pois cheguei ao ápice da história totalmente despreparada e isso tornou tudo ainda mais interessante.

A escolha de ler esse livro se deu quando vi uma chamada de leitura coletiva do blog Literature-se e como já queria ler algo da autora há tempos resolvi aceitar. No projeto, o intuito era ler 10 páginas do livro por dia o que consegui fazer nos 10 primeiros dias, e depois li o restante do livro em apenas um dia e infelizmente, fora da data final do projeto. Mas fico feliz de ter terminado e finalmente lido uma obra dessa autora fenomenal.

O subtítulo do livro é: uma biografia, portanto a história é narrada pelo seu biógrafo fictício e nos conta a vida de Orlando a partir de seus 16 anos. Orlando é um a rapaz nobre, muito bonito, que adora a natureza e é dado a escrever poemas e tem talento para isso. É bastante orgulhoso do passado de sua família, composta por guerreiros, e participa de muitos momentos importantes da história dos países por onde passa no decorrer do livro.

E aí está uma coisa fantástica e muito interessante que me dei conta tardiamente nesta história. Orlando nasceu no século XVI, mas quando faz 30 anos já é meados do século XIX e o livro termina no século XX. Temos então um cenário de fundo que se passa por mais de 300 anos de história, sendo que a vida de Orlando é contata até os seus 36!

Como se não bastasse, não é só esse fato que torna Orlando uma obra surpreendente! Quando está em Constantinopla, exercendo seu trabalho como Embaixador, Orlando dorme por 7 dias seguidos e quando acorda, se transformou numa MULHER!! E esse sem sombra de dúvidas é o momento mais impactante e importante do livro. A mudança não se dá apenas na troca de sexo (coisa que acontece de forma natural e é aceita por Orlando com uma tranquilidade assustadora), mas na percepção da personagem em relação a vida.

A partir desse ponto, muitos temas importantes e profundos são tratados quando Orlando, agora uma mulher, começa a perceber os dissabores e dificuldades que antes não tinha sendo homem. É possível notar isso em suas reflexões… “A que estranha situação chegamos quando toda a beleza de uma mulher tem que ser mantida coberta para que um marinheiro não caia do mastro principal”, “O homem tem a mão livre para pegar a espada, a mulher deve usar a sua para evitar que os cetins lhe escorreguem dos ombros”, “O homem encara o mundo de frente, como se tivesse sido feito para seu uso e de acordo com o seu gosto. A mulher lança-lhe um olhar de esguelha, cheio de sutileza e até de desconfiança. Se usassem as mesmas roupas, é possível que sua maneira de olhar viesse a ser a mesma”. Além disso trata de temas como: casamento, gravidez, questões de gênero, patriarcado.

Simplesmente fantástica a forma como todas essas questões profundas e complicadas são tratadas de forma leve e até mesmo icônica na narrativa do biógrafo fictício que acompanha a busca de Orlando pela felicidade e sentido na vida. Me identifiquei muito com a personalidade de Orlando (desde quando ainda era homem e depois, quando se transformou em mulher) e seu amor pela literatura, pela solidão, pela natureza e os animais. Vale ressaltar a escrita poética, sensível e belíssima de Virginia Woolf, fiz inúmeras marcações!!

Leitura super recomendada!!!

#TBR de Outubro

📖 Claro Enigma – #CarlosDrummonddeAndrade: homenageado do mês @clubetripas;

📖 A Noite do Perdão – #ValdineideFreitas: romance espírita, empréstimo e indicação dos pais (sim, ambos leitores, orgulho ❤️);

📖A Maçã no Escuro – #ClariceLispector: leitura do mês do clube de leitura Toda Clarice;

📖 Intérprete de Males – #Jhumpa Lahiri: me comprometi a ler pelo menos um livro da @taglivros por mês;

📖 Escuridão total sem estrelas – #StephenKing: Especial de Terror @clubetripas;

📖 Duna – #FrankHerbert: o filme vai ser lançado mês que vem e PRECISO LER;

📖 Os Porões da Antártida – #RaimundoTeles: recebido @poroesdaantartida e terminando a leitura!!

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: Morra, Amor – Ariana Harwicz

“Achei que meu menino estava chorando, mas toda noite eu o ouço chorar e, quando chego perto, é o silêncio total, como se tivesse gravado um fragmento do seu choro e se reproduzisse sozinho. Mas às vezes não ouço nada. Estou sentada no sofá, a poucos metros do seu quarto, vendo um programa de troca de casais, babás perfeitas, ou pintando as unhas, quando meu querido aparece com o calção meio arriado e me diz: por que ele não para de chorar?, o que ele quer?, a mãe é você, tem que saber. Não sei o que ele quer, digo, não tenho a menor ideia”.

Vou começar com esse trecho, pois ele diz tudo pra mim sobre a leitura desse livro. O que temos aqui é uma jovem mãe que muito claramente não queria ser mãe, ou simplesmente não fazia ideia de como seria e quando aconteceu não teve a melhor experiência de sua vida, como tão banalmente somos levados a acreditar que é a experiência materna. Ela vive numa cidade esquecida do interior da França com seu marido e seu bebê e sofre de depressão pós parto, nos dando uma narrativa confusa de seus sentimentos e pensamentos que é exatamente como ela se sente nesse universo.

Ela mesma, aborda o fato de que ter engravidado foi um erro que ela poderia ter evitado, mas que acabou não fazendo e agora está ali tendo que ir à padaria comprar um bolo de seis meses pro filho, pois segundo outras mães que, inclusive fazem os bolos elas mesmas, não é igual ao cinco ou ao sete… E “um segundo depois de parirem dizem, já não imagino minha vida sem ele, é como se ele estivesse sempre estado comigo”. Dá pra perceber a solidão nessas frases? Dá pra perceber o quanto ela se sente estranha por não sentir as mesmas coisas que as outras mulheres sentem? Ela debocha… consigo ver ela revirando os olhos nessa afirmação, mas é uma auto defesa, pra esconder a verdade: é solitário e extremamente doloroso não sentir algo que é tão natural e comum aos outros e sentir que só você, sente de forma diferente.

Então ela tenta esconder. E tenta ser a mãe que todos esperam que ela seja. E tenta ser a esposa que todos esperam que ela seja, mas falha miseravelmente a cada tentativa. Ela cozinha pro marido, ela troca o bebê (com raiva, querendo morrer, mas faz, tentando se encaixar), ela ouve ele chorando as vezes, e as vezes não consegue. Fica super claro os altos e baixos da depressão… os feixes de luz que se abrem e ela tenta desesperadamente se agarrar e tentar fazer algo normal, e quando a escuridão vem e ela simplesmente se deixa levar pelos pensamentos terríveis. Ouvi muito e li muito sobre: mas porque ela não procura ajuda? Por que ela não aceita ajuda? E essas perguntas não tem uma resposta certa e nem uma única resposta. Podem ser tantos os motivos: ela estar tão doente e sequer saber que precisa de ajuda, ela sentir vergonha da situação (o que acho provável, já que quando ela está no hospital conversando com os médicos ela diz o tempo todo: eu sou um lixo, eu sei que sou o pior dos lixos), e tantas outras possibilidades…

A frase do início da resenha, deixa muito claro o quanto é cobrado de uma mãe, o quanto ela tem que MILAGROSAMENTE saber das coisas porque de um dia pro outro se tornou mãe e a maternidade é esse conto de fadas que transforma as pessoas e de repente elas sabem tudo e são pessoas maravilhosas, nada mais importa. Elas são mães. Elas não são mais seres humanos, não são mais pessoas, não são mais nada: são mães. E além desse ponto que é muito importante, o trecho mostra o quanto é aceitável essa postura um tanto antiquada e patética de pai, de achar que só por ter contribuído na concepção já fez TUDO que tinha que fazer e não precisa fazer mais nada. Afinal, é a mãe que tem que saber…

Ah, mas eu sei que muitos defenderão o pai do livro, porque ele amava ela, ele aceitava o problema dela, ele cuidava do bebê nos momentos que ela estava tendo as crises. Vamos refletir um pouco mais sobre isso? Ele fazia sim, mas fazia porque ela não fazia, porque se ela fosse a guerreira que a maioria das mães que eu conheço é, e fizesse TUDO, o “querido” não sairia do lugar. E vamos relembrar que na maioria das vezes o bonito chamava a mãe dele ou levava o bebê pra casa dela. E eu só me faço uma pergunta: porque é aceitável o pai não cuidar, não acordar a noite, não ouvir o bebê chorar e a mãe não? Ambos são seres humanos e a gente precisa começar a desmistificar isso de que mãe é uma super mulher cheia dos poderes e que a partir do momento que vira mãe não sente mais nada, só é mãe. E precisa parar de achar aceitável essa postura ridícula de homens que “ajudam” mas dizem: “você que é a mãe” e dane-se se ela é um ser humano, se tem hormônios, se está doente, se não está preparada pra isso.

Porque é por isso que o aborto é um crime sem perdão, mas o pai ir embora e abandonar seu filho na barriga da mãe é normal, acontece… Ambas as situações são terríveis e na mesma medida pra mim. Porque acredito que se muitas mães tivessem ao lado um pai presente, de verdade, muitos abortos/abandonos e outras situações terríveis seriam evitadas. Está mais do que na hora da sociedade entender que a responsabilidade é dos dois. 50% de cada um, nem mais, nem menos pra nenhum!

Não estou, de forma alguma, justificando todos os atos dela. Ela fez sim muita coisa errada, muita coisa que dá angústia na gente de ler, mas que a gente precisa refletir. A maternidade não é igual para todas. Nem todo mundo sente esse amor incondicional e nem todo mundo passa por um conto de fadas, e tudo bem! Vamos ser mais empáticas umas com as outras e vamos refletir mais sobre a divisão de responsabilidades, porque ninguém faz filho sozinho! Sim, esse assunto me revolta e nem é meu lugar de fala, afinal, nem mãe sou. Mas tenho mãe e tenho amigas mães e sinto empatia por todas as que sofrem qualquer tipo de abuso por não sentirem como as outras, ou por pais que acham que fazem muito, sem realmente fazer algo de verdade.

Achei que era importante trazer essa reflexão. E acho importante demais um livro que traga a vida nua e crua, e a realidade como ela é pra que a gente possa se abrir a essas reflexões. Eu tiro meu chapéu para a coragem da autora, e que muitas outras mulheres se sintam seguras a dizer o que sentem sem precisar chegar nesses pontos extremos, podendo encontrar empatia e compreensão e talvez, encontrar um equilíbrio!

Super recomendo!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
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Resenha: A Semântica da Alma

Livro: A Semântica da Alma
Autora: Alex Brito @senti_mentalismo
Editora: Koinonia
Páginas: 108
Nota: 3
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Recebi o ebook do próprio autor que sigo há um bom tempo aqui no IG. Gosto muito da sua poesia, sempre que consigo na correria dos dias parar para ler, algumas construções suas me chamam muita atenção e me param, me fazem refletir.

Nesta sua primeira coletânea publicada, de nome belíssimo, está uma reunião de sentimentos deitados em palavras que trazem certo encanto, beleza e esperança para dias tão cinzentos que vivemos.

A poesia é isso, a tradução da vida em palavras que as vezes nos tocam, as vezes nos incomodam, nos fazem refletir, acalentam ou nos tiram do lugar comum.

Alex tem o olhar do artista e consegue enxergar além das barreiras físicas nos transmitindo isso através da sua escrita poética. Mas, preciso confessar que não tive tanta conexão com os poemas pois em sua grande maioria são bem românticos e quem me segue sabe que não é meu gênero favorito. Senti falta de outros temas, mas acredito que para os corações apaixonados estes poemas encontrarão eco!

Dois dentre eles, que são os meus favoritos, me chamaram muito a atenção e compartilho alguns trechos com vocês:

Do poema “Entre flores e munições”:

“Entre escombros emocionais
Olhei por cima dos ombros
Buscando sentimentos racionais”

E do poema “Inconstâncias”:

“E torcer que nesse caos de sentimentos
Surjam em mim novos universos”.

Me resta desejar que surjam muitos novos universos em formato de poemas e palavras e que novos livros sejam lançados!! Recomendo a leitura e conhecer o IG do autor que é recheado de boas poesias!!

Resenha: Da Preguiça como Método de Trabalho

Livro: Da Preguiça como Método de Trabalho
Autora: Mário Quintana
Editora: Alfaguarra
Páginas: 328
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Doce reflexão sobre o cotidiano!
Mário Quintana é um dos meus poetas favoritos! Um doce de pessoa que enxerga a vida através da poesia. Neste livro, que acredito ser o seu “Livro do Desassossego” (Esse é do Fernando Pessoa, um livro lindíssimo que super recomendo e tenho pra mim que alguns autores acabaram seguindo esse caminho do Pessoa e publicaram os seus livros do Desassossego, cito alguns: Ostra Feliz Não faz Pérola é o do Rubem Alves, A Descoberta do Mundo é o da Clarice Lispector)!!

É um livro que contém de tudo um pouco: poesia, frases soltas, trechos, contos, crônicas, diálogos… E tudo isso com o olhar doce e a escrita singela e fantástica de Quintana que nos faz refletir sobre o que foi dito. Tem um pouco de humor, um pouco de saudade, um MUITO de amor em todas as suas palavras. Não é um livro pra ser lido uma vez só, e sim pra ser relido, repensado, tirado da estante pra ler uma página aleatória, reler alguns trechos, enfim… Assim como todo “Livro do Desassossego”, um livro sem fim… Pra vida toda!

Amei demais esse livro, que confesso, comprei pelo título que achei bastante instigante! O próprio Quintana o explica:

“Não sei pensar a máquina, isto é, faço o meu trabalho criativo primeiro a lápis. Depois, com o queixo apoiado na mão esquerda, repasso tudo a máquina com um dedo só.
_ Mas isto não custa muito?
_ Custar, custa, mas dura mais”.

E ainda completa: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Não poderia viajar o mundo inteiro”.

Perfeito e doce, como Quintana. Super recomendo a leitura!