Resenha: As Palavras de Saramago

Livro: As Palavras de Saramago
Organizador: Fernando Gomez Aguilera
Editora:
Companhia das Letras
Páginas: 488
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante;
5.Adorei)

“Aqui jaz, indignado, fulano de tal”

É como Saramago quer que coloquem em sua lápide quando morrer… E diz mais “indignado por ter entrado num mundo injusto e ter saído de um mundo injusto”. Eu sou fã de Saramago desde o primeiro livro que li “Ensaio sobre a Cegueira”. Depois a cada livro que fui lendo do autor, fui me apaixonando cada vez mais pelo seu jeito direto, racional, a vida como ela é de fazer literatura.

Esse livro foi um presente de uma amiga querida e é uma coletânea de citações de José Saramago recolhida de suas declarações em jornais, revistas, livros e entrevistas publicados em diversos países ao longo de 3 anos. Essas citações estão divididas em três grandes seções:

– Quem se chama José Saramago: compilando citações do autor sobre si mesmo, o ser humano, a vida, a morte, Deus, ética, razão, entre outros. Nessa seção conhecemos um pouco mais sobre o autor e suas reflexões, questionamentos e indignações sobre estes temas. Dentre as maravilhosas palavras destaco: “As vezes, o ter destrói o ser”; “A felicidade consite em dar passos em direção a si mesmo e olhar o que você é”; “Há um morrer de cegueira, que é um morrer de quem não usa a razão para viver”; “A doença mortal do homem como homem é o egoísmo”.

– Pelo fato de ser escritor: que traz suas declarações sobre literatura, obras, autor-narrador, leitores, romance, história, entre outros. Aqui descobrimos o profissional escritor, como se dedica a esse trabalho de forma racional, sem rituais, sem modos de fazer, mas com dedicação, afinco e muito estudo e pesquisa. Dentre suas palavras, destaco as seguintes: “Não temos outra coisa [que palavras]. Somos as palavras que usamos A nossa vida é isso”; “Tudo pode ser ‘extraordinário’, se é ‘extraordinária’ a nossa maneira de ver e de sentir”; “Toda obra literária leva uma pessoa dentro, que é o autor”; “Dizer demais é sempre dizer de menos”; “Num romance cabe tudo, é uma tentativa de compreender o mundo”

– O cidadão que sou: trazendo palavras do autor sobre compromisso, democracia, política, meios de comunicação, direitos humanos, pensamentos críticos, entre outros. E nesta ultima seção, conhecemos os pensamentos de Saramago sobre seu compromisso como escritor em relação à sociedade, ao mundo, à vida. Ele não se vê e nem a sua obra como algo à parte do mundo. Dentre estes, os que destaco são: “Indignemo-nos”; “deveríamos viver mais incomodados. O amanhã não existirá se não mudarmos o hoje”; “A democracia não pode se limitar à simples substituição de um governo pelo outro”; “Uma bala nunca é um argumento político”; “Vivemos num sistema de mentiras organizadas”; “Estou comprometido com a vida até o ultimo dos meus dias, e me esforço para mudar as coisas”.

E dizer mais o que? Praticamente marquei o livro todo. Saramago é sensacional, um dos meus autores favoritos e recomendo muitíssimo a leitura.

Resenha: A Menina do Sorriso Roubado

Livro: A Menina do Sorriso Roubado
Autor(es): N.P. Azeredo
Editora:
Pendragon
Páginas: 175
Nota: 3
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

O livro da jovem autora N.P. Azeredo é um drama que conta a trajetória da também jovem Valentina, que ao perder os pais em um acidente quando tinha 17 anos, foi morar com seu padrinho Luiz, sua esposa Regina e seus filhos, Daniel e Pedro. Valentina e Pedro se apaixonam, porém uma festa de aniversário muda suas vidas para sempre. Ao longo de uma trama de muitas intrigas, traições e sofrimentos, vamos descobrindo partes do passado de Valentina e novas situações e obstáculos do presente que podem colocar em risco seu sonho de ser chef e voltar a sorrir como antes do acidente.

A editoração do livro está linda, a capa chama atenção e dá pra ver o cuidado com a beleza nos detalhes das páginas como todos os livros da editora!

A narrativa da autora é agradável e a trama é interessante, faz com que você queira descobrir o que acontecerá a seguir. Além disso o livro não deixa pontas soltas, explicando todas as situações introduzidas à historia. Minha ressalva é que em alguns momentos, a quantidade de informações e a forma que autora escolheu para inseri-las na história, de forma a fazer um mistério, tornou algumas cenas bastante confusas pra mim. Além disso, a trama trata de alguns assuntos pesados e senti falta de aprofundamento nas emoções dos personagens.

Como o livro foi escrito quando a autora tinha apenas dezessete anos e seja ainda seu segundo livro lançado, acredito que com o tempo e maior vivência e maturidade na escrita, esses pontos sejam aperfeiçoados.

Vejo possibilidades de crescimento na narrativa da autora e acredito que sua história agrade aos jovens leitores.

Resenha: A Forma da Água

Livro: A Forma da Água
Autor(es): Guilhermo Del Toro & Daniel Kraus
Editora:
Intrínseca
Páginas: 352
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante;
5.Adorei)

“Ele não é humano – ele diz…

… Estas são as palavras de um velho cansado, implorando para viver seus últimos dias em paz. Antes que possa escapar pela saída de incêndio, no momento em que está se virando, ele vê as mãos de Elisa sinalizarem em resposta e fica com a sensação de que elas fazem um marca em suas costas, através do paletó, do suéter, da camisa, do músculo, do osso, fundo o bastante para que machuquem como um ferimento recente por todo o caminho até a Klein & Saunders, onde ela começa a coçar e se transformar na cicatriz que ele será forçado a encarar pelo resto da vida: ‘Nem nós'”.

A Forma da Água é um ficção maravilhosa criada por Guilhermo Del Toro e transformada em livro pelo autor Daniel Kraus. Desde que li/assisti “O Labirinto do Fauno” estou apaixonada por Del Toro e sua capacidade de reunir fatos históricos com fantasia, mesclando o improvável ao possível, o místico ao cotidiano e fazendo isso com cenas tão belas e cheias de sensibilidade que é impossível não se encantar.

Nesta trama, Del Toro trata de diversos temas importantes, sendo o mais relevante e o foco central dessa história, as dificuldades do ser humano em aceitar as diferenças. Elisa, é muda, órfã e servente, o que a faz ser praticamente invisível a todos a sua volta, trazendo uma solidão que está além da companhia, mas da compreensão e sensação de pertencimento. Giles, vizinho de Elisa e um de seus únicos amigos, é gay e um artista decadente que passa por situações de preconceito e desconforto. Zelda, colega de trabalho de Elisa, é negra e sofre muitas humilhações. Para culminar essa equipe, está o ser sobrenatural, o “recurso” da Occan, empresa onde Elisa e Zelda trabalham, que foi capturado na Amazônia onde era chamado de Deus Brânquia e tratado como tal, para virar projeto de pesquisa e ser torturado em busca de inovações.

Ao fazer contato com o homem-peixe, Elisa se sente pela primeira vez em toda sua vida, vista de verdade, compreendida e de forma nenhuma julgada por sua mudez ou condição. Assim como o ser sobrenatural se sente pela primeira vez respeitado e não temido por sua aparência. Ambos sentem que apesar de serem de espécies diferentes, de mundos diferentes, são iguais em essência, mais parecidos do que os que deveriam ser seus semelhantes. A amizade que desenvolvem se transforma em um amor, que vai muito além do amor romântico. É poético, intenso, e extremamente tocante como criaturas tão diferentes se enxergam como são e amam pelo simples fato de respeitar ao invés de temer, conhecer ao invés de subjugar.

Afora isso, o livro tem como pano de fundo a Guerra Fria e traz muitos outros temas como disse, tratando os dilemas pessoais dos personagens e inserindo críticas sociais e políticas de forma muito clara e objetiva. Não há pontas soltas, tudo que é descrito, os diálogos e cenas são usados para fechar este ou aquele quebra cabeça e no fim tudo se completa de forma fascinante.

Uma lição de respeito e amor, que nos é transmitida através de uma incrível narrativa, cheia de cenas fortes e impactantes, mas também de extrema beleza e sensibilidade. “Assim é a vida, Elisa. Coisas remendadas juntas, sem sentido, a partir das quais nós, em nossas mentes necessitadas, criamos mitos que nos agradam. Você compreende?”

Recomendo fortemente a leitura!!!

Resenha: Máscaras do Tempo

Livro: Máscaras do Tempo
Autor(a): Florbela Espanca
Editora:
Martin Claret
Páginas: 116
Nota: 3
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Florbela em prosa!
Comprei este livro acreditando ser mais um dos belos livros de poemas da autora que tanto admiro. Para minha surpresa, é um livro de contos e uma obra feita em homenagem ao irm?o Apeles Espanca que morreu em um acidente aéreo. A obra, publicada postumamente, se comp?e de 8 contos, todos eles com a mesma temática: a morte.

“Este livro é o livro de um Morto, este livro é o livro do meu Morto”.

Sua aventura pelo mundo dos contos nos presenteia com uma prosa cheia de poesia e belas palavras traduzindo os mais íntimos sentimentos como é composta as obras de Florbela. Palavras envoltas da dor da perda, mas belamente usadas. Alguns de seus contos, como é o caso de “Os Mortos n?o Voltam” e “A Morta” trazem uma aura fantástica e assustadora, típicas dos contos de Edgard Allan Poe. Mas essas características n?o prevalecem em todos os contos.

O conto que mais me marcou foi “O resto é perfume…”, onde a autora parece buscar uma forma de sobreviver ao trauma da perda através das personagens: Uma amiga e um louco que passeiam por uma regi?o lindíssima em Portugal que traz o contraponto entre liberdade e solid?o, em busca de respostas para os grandes dilemas da vida e da morte. 

“A vida é este cacho de lilás… Mais nada. O resto é perfume…”.

Confesso que mantenho minha preferência por seus versos, mas Florbela também demonstra enorme talento nos contos!! 

Resenha: Conselhos amorosos de Emily Brönte

Livro: Conselhos Amorosos de Emily Brönte
Autor(a): Anne Donovan
Editora:
Essencia
Páginas: 351
Nota: 2
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

“Não importa o quanto a gente não goste da verdade, precisamos encará-la”.

Quem me conhece deve imaginar porque eu escolhi ler esse livro!! Eu sou apaixonada pelo Morro dos Ventos Uivantes e qualquer livro que faça qualquer menção ao livro ou sua autora Emily Brönte chama minha atenção. Infelizmente esse não foi um caso feliz de livro escolhido pelo título ou pela capa.

Não, o livro não é de todo ruim. A autora teve grandes ideias e trata de assuntos bastante importantes e necessários como a perda de alguém da família, homossexualismo, primeiro relacionamento amoroso, gravidez na adolescência, porém não se aprofundou nestes assuntos, tratando tudo com muita superficialidade, de forma que fica difícil construir uma relação com os personagens e ter alguma emoção mais séria com os acontecimentos.

Além disso, apesar do título do livro, a autora Emily Brönte e sua obra são pouco citadas no livro. A premissa é de que Fiona, a protagonista, teria como modelo de vida e inspiração a autora do fantástico Morro dos Ventos Uivantes, mas afora ela tentar imitar o dia a dia da autora ainda na fase juvenil, uma visita da Escola a casa dos irmãos Brönte e uma leve relação feita de uma exposição da protagonista com a vida de Emily, essa premissa é pobremente explorada e Emily não chega nem a ser uma personagem secundária na história, como o título faz acreditar.

Ainda assim, tratando-se de um livro que trata da passagem da adolescência para a vida adulta e comparando-se a outras obras deste estilo, a autora abordou temas importantes e mostrou um cotidiano muito real e a vida como ela é, o que é muito positivo.

Resenha: Sobre os Ossos dos Mortos

Livro: Sobre os Ossos dos Mortos
Autor(a): Olga Tocarczuk
Editora:
Todavia
Páginas: 256
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

 

“Uma criatura havia comido outra no silêncio e na quietude da noite…
… Ninguém protestou. Nenhum raio caiu do céu. No entanto, o castigo atingiu o demônio, ainda que nenhuma mão tivesse guiado a morte”.

Esse livro foi um presente de uma amiga muito querida, que me disse: “é minha contribuição à sua causa”. A causa que simpatizo e defendo, porque ainda estou muito longe de ser uma ativista como gostaria. Seja como for, foi um presentão que eu amei demais e entrou na minha lista de livros favoritos. São tantos os pontos importantes que quero abordar nesta resenha que nem sei por onde começo!!

Vamos começar falando da protagonista e narradora da história: Sra. Janina Dusheiko. Uma senhora de idade que sofre muito com as mazelas sofridas pelos animais da região onde mora, um vilarejo em uma remota região da Polônia onde a maioria das pessoas acredita que animais são seres inferiores aos seres humanos e devem ser tratados como tal, o que para a Sra. Dusheiko é um aburdo sem tamanho. Vegetariana e excêntrica para a grande maioria dos moradores (ou mais especificamente velha louca), sua vida se resume a estudar astrologia, ajudar um ex-aluno na tradução de poemas de William Blake, a manutenção das casas de aluguel da região e infernizar a vida dos caçadores de animais, sabotando suas armadilhas e exigindo da polícia um posicionamento sobre isso. Me identifiquei à primeira vista com a Sra. Dusheiko e ouso dizer, com uma ressalva (bem grande que só quem ler entenderá), que ela é o meu futuro. Morando sozinha, na companhia de suas duas cachorras, que já no início do livro descobrimos estão desaparecidas, ela tem suas manias, gosta da solidão, se irrita com presenças não planejadas e sofre, terrivelmente com o sofrimento animal. Me vi em muitas cenas por ela descritas de suas intervenções com seus vizinhos caçadores em prol dos animais, inclusive os domésticos.

“Tristeza, senti uma grande tristeza, e um luto interminável por cada animal morto. Termina um luto e logo começa outro, então estou em constante luto. É meu estado natural”.

Dito (TUDO) isso, partimos para a trama do livro: os caçadores da região começam a morrer misteriosamente um por um, numa espécie de assassinatos em série que começa com a morte de Pé Grande (Sra Dusheiko não gosta dos nomes que as pessoas recebem de forma burocrática no cartório e as nomeia pelo que acredita seja mais parecido com elas). O corpo dele foi encontrado por ela e Esquisito, um vizinho com quem ela tem uma certa convivência agradável, numa cena grotesca já no primeiro capítulo, o que te envolve bastante na leitura. A partir daí as demais mortes se seguem e nossa protagonista nos passa a certeza absoluta de que é a natureza se vingando desses homens cruéis.

A verdade é que no primeiro capítulo você sente que vai entrar numa história de crime e investigação convencional, porém a autora nos presenteia com um romance único, macabro e ao mesmo tempo encantador, sobre diversas questões contemporâneas como direito dos animais, loucura, velhice, injustiça, relacionamento humano e hipocrisia. A forma como a autora, genialmente, desenrola os fatos, nos faz parte da trama, sem que possamos perceber, e vamos descobrindo aos poucos o real caminho que ela quer que percorramos nesta montanha russa de acontecimentos.

Simplesmente amei essa história, a forma como ela foi contada, os personagens, enfim.. Nunca tinha lido nada da autora, mas achei sua narrativa corajosa e envolvente. Esse livro é sensacional e uma experiência literária completa!!

Super recomendo a leitura.

Resenha: A Bela e a Fera

Livro: A Bela e a Fera
Autor(a): Clarice Lispector
Editora:
Rocco
Páginas: 110
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

“Cada pessoa é um mundo, cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve; só se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobrenada e que não é o vital; o “mal de muitos” é consolo, mas não é solução”.

O que falar da escrita dessa mulher maravilhosa? Qualquer coisa que eu diga já virou clichê e eu já sou suspeita porquê sou muito fã. Esse livro foi publicado postumamente e é uma coletânea de oito contos que foram escritos em duas fases bem diferentes da vida da autora. Seis contos entre 1940-41 e nos apresenta a escrita de uma jovem aflita de 14 anos que começa a inventar histórias e escrever seus contos e os últimos dois de 1977, pouco antes de sua morte. Todos eles revelam personagens mulheres procurando entender o sentido de suas vidas.

De nossas vidas, porque Clarice escreve a gente. É impossível não se encontrar em algum pensamento, em alguma frase, em uma das inúmeras situações que ela nos descreve tão brilhantemente. E mesmo que você não se encontre, ou não tenha passado pelo que ela está descrevendo, aquilo te faz refletir de uma forma profunda. Na minha opinião é justamente isso que assusta na literatura dela. Clarice faz você mergulhar em reflexões que talvez você não esteja ainda preparado pra fazer, ou que simplesmente não queira, mas não tem muita escolha. Se abriu o livro, não tem mais como voltar atrás. Palavra por palavra ela te puxa pra dentro e quando você vê já está se questionando de muitas coisas.

O último conto em específico é simplesmente sensacional e me lembrou muito um outro conto dela chamado Perdoando Deus que me marcou profundamente. O conto deste livro, que dá o nome ao livro, se intitula: “A Bela e a Fera ou a ferida grande demais” e trata do encontro de uma socialite com um mendigo ferido em Copacabana que faz com que ela faça uma relação entre a ferida aberta do mendigo e o quanto ela era real, com ela mesma e o fato de que não passava de uma mentira encoberta de jóias e maquiagem desfilando em salões escondendo um imenso vazio, sua ferida. Clarice é magistral! E sabe muito bem usar as palavras e nos fazer refletir sobre o que realmente importa.

Fecho essa resenha, com mais uma citação desse livro que recomendo demais a leitura, como todos de Clarice:

“Tudo lhe perdoo, tudo perdoo aos que não sabem se prender, aos que se fazem perguntas. Aos que procuram motivos para viver, como se a vida por si mesma não justificasse”.

Resenha: After

Livro: After
Autor(a): Anna Tood
Editora:
Paralela
Páginas: 524
Nota: 2
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Eu não sei como escrever essa resenha sem dizer que fiquei bastante decepcionada com o livro. Ok, ele trata de um assunto importante a ser abordado principalmente aos adolescentes/jovens adultos, que é o relacionamento abusivo? Trata (porém existem outros livros na literatura que tratam do assunto muito melhor. Recomendo: ACOTAR da Sarah J. Maas). A narrativa da autora é extremamente envolvente? É sim, afinal li 524 páginas em um dia!! Mas confesso que eu estava esperando um desfecho mais impactante e de certa forma mais elaborado. Perdi totalmente a vontade de ler os outros livros, porque pelo que me pareceu, serão outros 4 volumes tratando do vai e vem do casal protagonista que vive um relacionamento entre amor e ódio, que não deveria de forma alguma, ser romantizado. Fiquei um pouco indignada também com a citação pouco aprofundada e até mesmo errônea dos fatos do meu livro favorito da VIDA, que é O Morro dos Ventos Uivantes, mas como foram citadas como opiniões das personagens, há de se relevar. E esse é um ponto importante e acho que o mais alto de todo esse livro: há bastante citações de obras e autores clássicos da literatura e isso é sempre um ganho para o incentivo a leitura!

Resenha: Coraline

Livro: Coraline
Autor(a): Neil Gaiman
Editora:
Rocco
Páginas: 160
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Coraline, foi o primeiro livro que Neil Gaiman escreveu para o público infantil e já acertou na mão!! É o tipo de livro que tem todo o esteriótipo do livro infantil, mas que não tem idade certa para a leitura. Ele é para todas as idades, e o mais genial é que cada idade vai entender aquilo que é necessário entender da história naquele momento. Porque Neil Gaiman conta uma história nas linhas e outra nas entrelinhas, criadas para encantar e assombrar.

A história começa com Coraline se mudando para uma nova cidadezinha com seus pais. Eles passam a morar em uma casa antiga, tão grande que foi dividida em quatro apartamentos vendidos separadamente. Apenas um deles ainda não foi vendido e está fechado. Nos demais moram Coraline e a família, duas senhoras ex-atrizes e um senhor que diz treinar ratos para um número de circo. Coraline vive explorando sua nova casa, enquanto seus pais trabalham e não tem muito tempo pra ela. Em uma das brincadeiras para se distrair, ela conta quantas portas a casa possui e descobre uma porta misteriosa que quando aberta dá para uma parede de tijolos que separa sua casa do apartamento vazio. Num dia chuvoso, sozinha em casa, Coraline decide checar essa porta novamente e descobre que a parede de tijolos sumiu e em seu lugar está uma passagem escura que a leva para sua própria casa, só que bem mais divertida e atraente. Nela, encontra seus pais, um pouco diferentes, com botões no lugar dos olhos e aparentemente bem mais afetuosos e com tempo pra ela. O gato que foge dela na casa de antes, nesta casa até conversa com ela, e ela finalmente conhece os ratos de circo que o Senhor insistia que treinava, mas que ela nunca tinha visto. Tudo é muito melhor que o original nessa nova versão de seu lar e seus pais diferentes querem convencê-la a ficar e colocar botões em seus olhos. Apesar de todas as coisas boas desse lugar mágico, Coraline sente que tem algo errado e recusa a oferta, se vendo em apuros e tendo que enfrentar desafios para sair daquele lugar e salvar seus pais verdadeiros.

É uma história grandiosa contada com simplicidade e poesia, os acontecimentos vão sendo descritos com uma sutileza tenebrosa. São retalhos dos nossos próprios medos. As personagens são profundas e inesquecíveis, nos fazendo refletir sobre as muitas faces que cada um esconde sobre sutilezas e sorrisos e os diálogos, mesmo os mais pequenos, tem sempre muito a dizer.

Do início ao fim do livro você é colocado a refletir sobre o que é real e o que não é e como as pessoas não conseguem esconder de todo suas verdadeiras naturezas. Me encantou muito como ele construiu a personagem Coraline, que apesar de ser uma criança, é extremamente esperta e consegue pressentir perigos e reconhecer certas situações com grande clareza. Sinto que as crianças são muito subestimadas hoje em dia e acabam crescendo sem atitude e pouco criativas por conta disso. Gaiman confiou que Coraline seria capaz, nós leitores também confiamos, embora com medo. Mas como ela mesma diz….

“quando você tem medo e faz mesmo assim, isso é coragem”.

Resenha: Laços de Família

Livro: Laços de Família
Autor(a): Clarice Lispector
Editora:
Rocco
Páginas: 135
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Ler Clarice é desnudar-se. Olhar pra dentro, refletir. A leitura é densa porque trata da alma e de sentimentos que muitas vezes não queremos confrontar. Por isso ela as vezes (ou muitas vezes) não é compreendida. Clarice é um olhar pra dentro da gente.

Eu sou suspeita pois sou fã incondicional dela, mas também tenho que confessar que não consigo ler livros dela seguidamente. Tenho que ler e dar um tempo. Gosto assim também porque dessa forma consigo captar melhor o que ela transmite, compreendo mais.

Neste livro de 13 contos, destacam-se para mim: “A galinha”, “Amor” e “O crime do professor de Matemática”. Neste ultimo, um professor abandona um cachorro que teve e tenta encontrar o perdão para o seu crime. Apesar do final do conto não ser como eu gostaria que fosse (e isso se dá por que Clarice retrata a verdadeira alma humana) eu adorei essa citação:

“Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua. Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma. E tu – como saber jamais que nome me deste? Quanto me amaste mais do que te amei?”.

Leitura recomendada para aqueles que, assim como eu, são fãs de Clarice.