Resenha: Da Preguiça como Método de Trabalho

Livro: Da Preguiça como Método de Trabalho
Autora: Mário Quintana
Editora: Alfaguarra
Páginas: 328
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Doce reflexão sobre o cotidiano!
Mário Quintana é um dos meus poetas favoritos! Um doce de pessoa que enxerga a vida através da poesia. Neste livro, que acredito ser o seu “Livro do Desassossego” (Esse é do Fernando Pessoa, um livro lindíssimo que super recomendo e tenho pra mim que alguns autores acabaram seguindo esse caminho do Pessoa e publicaram os seus livros do Desassossego, cito alguns: Ostra Feliz Não faz Pérola é o do Rubem Alves, A Descoberta do Mundo é o da Clarice Lispector)!!

É um livro que contém de tudo um pouco: poesia, frases soltas, trechos, contos, crônicas, diálogos… E tudo isso com o olhar doce e a escrita singela e fantástica de Quintana que nos faz refletir sobre o que foi dito. Tem um pouco de humor, um pouco de saudade, um MUITO de amor em todas as suas palavras. Não é um livro pra ser lido uma vez só, e sim pra ser relido, repensado, tirado da estante pra ler uma página aleatória, reler alguns trechos, enfim… Assim como todo “Livro do Desassossego”, um livro sem fim… Pra vida toda!

Amei demais esse livro, que confesso, comprei pelo título que achei bastante instigante! O próprio Quintana o explica:

“Não sei pensar a máquina, isto é, faço o meu trabalho criativo primeiro a lápis. Depois, com o queixo apoiado na mão esquerda, repasso tudo a máquina com um dedo só.
_ Mas isto não custa muito?
_ Custar, custa, mas dura mais”.

E ainda completa: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Não poderia viajar o mundo inteiro”.

Perfeito e doce, como Quintana. Super recomendo a leitura!

Resenha: A Cor Púrpura

Livro: A Cor Púrpura
Autora: Alice Walker
Editora: Círculo do Livro
Páginas: 258
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

“Tudo o queu sei fazer é cuntinuar viva”

Eu li esse livro muito nova e numa época em que não entendia absolutamente qual era o tamanho do que Celie estava me contando em suas cartas, não dirigidas a mim, mas a Deus. A Deus porque Celi não tinha ninguém a quem recorrer e uma necessidade de expor seus sentimentos e os acontecimentos ao seu redor, então escrevia pra única pessoa que tinha. As vezes também escrevia para sua irmã, Netti, desaparecida e que Celi acreditava estar morta.

É através de suas cartas que vamos conhecendo Celi, que começa a contar sua história quando tinha apenas 14 anos e sofre abuso sexual pelas mãos do próprio pai. Uma jovem negra, vivendo no sul dos Estados Unidos numa época onde o machismo e o racismo eram extremamente expressivos. Suas cartas, em linguagem simples mas imensamente humana, nos fazem sofrer, chorar, sorrir, suspirar ao longo de 30 anos de história que passam por inúmeras provações terríveis: como os filhos que teve do abuso que sofria e foram arrancados de seus braços, o casamento forçado, as agressões, a solidão.

No meio de todos esses tormentos, Celi encontra algumas pessoas muito importantes em sua vida. Mulheres, que vão lhe mostrar que a vida pode ser muito mais que apanhar e servir. E esse é o ponto principal dessa história pra mim, o que mais marcou e ficou. A sororidade, já ali, naquela época. Mulheres tão diferentes, de mundos e situações tão distantes que se encontram e se unem em mútua fraternidade.

Preciso muito fazer uma releitura desse livro, pois muitos detalhes me escapam da memória e é uma obra importante demais, que aborda temas extremamente necessários até hoje e que não pode passar batida. É preciso ser revisitada, relida e sempre lembrada. Ainda não está entre os favoritos, mas acredito que fazendo a releitura, entrará!

“Todos nós temos que começar de algum lugar se a gente quer melhorar, e é o nosso próprio ser que a gente tem pra segurar”.

Resenha: Os Homens que não Amavam as Mulheres

Livro: Os Homens que não Amavam as Mulheres
Autora: Stieg Larsson
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 522
Nota: 5 ❤
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Confesso que achei o início monótono e cansativo, mas sei bem que toda a descrição de personagens e momentos foi necessária para o desenrolar da história! Virei fã do autor logo nesse primeiro livro, assim como virei fã da personagem Lisbeth Salander, uma das mais marcantes em minha opnião, deste livro e do meu pequeno universo de leitura. Tornou-se uma das minhas personagens favoritas!

Neste primeiro volume da trilogia, o jornalista Mikael Blomkvist e a genial hacker Lisbeth tentam desvendar uma trama verdadeiramente escabrosa. Em 1966, Harriet Vanger, jovem herdeira de um império industrial, some sem deixar vestígios. No dia de seu desaparecimento, por coincidência ou não, o acesso à ilha onde ela e vários membros de sua família se encontravam, estava fechado por um acidente com um caminhão. Desde então, a cada ano, Henrik Vanger, o avô de Harriet e patriarca do clã, recebe uma flor emoldurada – o mesmo presente que a neta lhe dava até desaparecer. Ou ser morta. Pois Henrik está convencido de que ela foi assassinada e que o assassino é alguém da família.

Após 40 anos incidente, Henrik decide contratar o jornalista Mikael, que está passando por problemas em sua revista, para conduzir a investigação como última tentativa para desvendar esse mistério, propondo ajudá-lo com a revista como pagamennto. Mikael aceita e com a ajuda de Lisbeth e sua memória fotográfica, passa a buscar a verdade por trás dos mistérios da família Vanger.

Tenho uma teoria de que Larsson se deu conta nesse livro do potencial de Lisbeth e só então resolveu escrever os outros dois, pois muito embora o jornalista Mikael seja o protagonista, Lisbeth rouba toda a cena!

História impecavelmente escrita e extremamente empolgante, além de viciante. Leitura mais do que recomendada!

Resenha: Morte Súbita

Livro: Morte Súbita
Autora: J.K. Rowling
Editora: Rocco
Páginas: 501
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Sim, ela é a escritora maravilhosa que criou HP e MUITO MAIS!
Eu tinha muito medo de ler esse livro e me decepcionar descobrindo que J.K. criou o mundo mágico e foi só. Tinha a impressão de que ela seria essa autora de uma obra e que qualquer tentativa fora daquele contexto não daria certo. Talvez por isso eu tenha demorado TANTO pra ler esse livro que me provou que eu estava muito, mas muito enganada.

Morte Súbita começou bem arrastado, confesso. Eu demorei bastante pra me empolgar com a história e os muitos personagens que foram aparecendo me deixavam confusa e com certa preguiça de tentar entender. Mas em alguma esquina ou vírgula a história me encontrou e toda a descrição dos personagens caleidoscópicos que a autora nos apresenta desde o primeiro capítulo faz todo sentido.

Morte Súbita conta muitas histórias dentro de uma história que se for levada em consideração sem olhar os muitos prismas apresentados em suas reentrâncias, pode ser considerada parada e sem muita emoção, mas pra mim, o grande quê da história são justamente as vidas e os problemas familiares que despontam diversas críticas sociais. Eu me vi sinceramente envolvida com vários personagens, em especial Krystal, Terri e Robbi.

A história gira em torno de um vilarejo chamado Pagford, e se inicia com a morte súbita de um membro do Conselho, Barry Fairbrother, que deixa sua cadeira vaga e um vilarejo em polvorosa com a notícia e suas repercussões. O que assistimos J.K. fazer, brilhantemente diga-se de passagem, é nos apresentar um personagem principal ausente que movimenta toda a trama! Aparentemente, é uma história que envolve mistério e disputa de poder pela cadeira no conselho e talvez muitos leitores que esperavam essa trama bem definida e a resolução dessa situação, acabam se decepcionando.

O que temos, e que pra mim é muito mais valoroso, é a vida como ela é. Personagens reais e palpáveis, que reagem às situações conforme suas próprias histórias e bagagens, complexas. O cenário de Morte Súbita é uma cidade pequena, pacata e os acontecimentos não tem como ocorrer de outra forma que não sendo construídos aos poucos pelas situações que vão surgindo e desvendando diversos pequenos conflitos e segredos. Eu adoro narrativas que mostram como as pessoas reagem em situações adversas e Morte Súbita é um prato cheio nesse quesito.

Além disso, em nenhum momento você consegue imaginar onde J.K. quer chegar com todas essas histórias e interações e isso também é maravilhoso e me manteve fascinada com a história. Falar mais que isso pode estragar a experiência literária de quem se aventurar por e este livro e acabar por descobrir que J.K. é ainda mais fantástica do que podíamos imaginar.

“Na sua opinião, o maior erro de noventa e nove por cento das pessoas é ter vergonha de serem quem são, é mentir a esse respeito, fingindo ser alguém diferente. A honestidade era a sua marca, a sua arma, a sua defesa. Quando somos honestos, as pessoas se assustam, ficam chocadas”.

Super recomendo a leitura!

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: A Garota no Trem – Paula Hawkins

Há muito tempo um livro não me prendia tanto a leitura e isso me deixou muito feliz! Eu li o livro em praticamente um dia. Porque a primeira vez eu li até a página quarenta, na segunda vez que peguei o livro, eu terminei. Fui dormir duas horas da manhã porque era impossível parar a leitura, eu precisava continuar. 

“Nunca entendi como as pessoas podem negligenciar com tanta frieza os danos que causam ao seguir o que manda o coração. Quem foi que disse que fazer o que manda o coração é uma coisa boa? É puro egocentrismo, um egoísmo de querer ter tudo.”

A narrativa dessa autora é fantástica, embora eu não seja uma grande fã de livros escritos em primeira pessoa. Mas a forma como ela vai descrevendo os acontecimentos tanto reais, quanto os que se passam nas cabeças das personagens, é muito envolvente e apaixonante e foi isso que me prendeu a leitura. Isso e o fato de ser um romance mais adulto e psicológico e não tão adolescente. Quando ouvi falar do livro/filme, imaginei algo totalmente diferente do que li e depois assisti (sim, já corri assistir ao filme assim que terminei o livro). 

A história é narrada por três personagens, um recurso que gosto bastante pois deixa tudo mais envolvente e com gostinho de quero mais. Além de te dar três visões diferentes da mesma história, partindo das vivências de cada uma das personagens. Acho isso fantástico unido ao recurso da narrativa em primeira pessoa. Como disse no início, não sou fã, mas quando é bem feito, fica fantástico. 

“De vazio, eu entendo. Começo a achar que não há nada a se fazer para preenchê-lo. Foi o que percebi com as sessões de terapia: os buracos na sua vida são permanentes. É preciso crescer ao redor deles, como raízes de árvore ao redor do concreto; você se molda a partir das lacunas.”

O enredo gira em torno de uma mulher na faixa dos 35 anos, que pega todos os dias o trem até Londres para ir e voltar do trabalho. Ela é a garota no trem e se chama Rachel. Nessa trajetória de ida e volta, ela observa as casas que ficam próximas a linha do trem, e como é muito criativa, cria algumas histórias em sua cabeça para algumas das pessoas que sempre observa da janela. Entre essas casas, está a casa em que ela morava com o ex-marido, Tom. Eles se divorciaram e ele mora na casa com a atual esposa e recém-nascida filha. Rachel ainda não aceitou o divórcio e sofre muito com tudo que tem acontecido. Ela se tornou alcoólatra e sempre acaba fazendo algumas bobagens como ligar para o ex-marido ou ir até a casa dele. Eu me apaguei demais a essa personagem e senti muito as suas dores, é bastante triste a situação em que ela se encontra e é impossível não se envolver. 

“Mas acabei me tornando uma pessoa triste, e a tristeza cansa depois de um tempo, tanto para quem está triste como para todo mundo em volta.”

A segunda personagem é uma mulher que a Rachel observa do trem e cria em sua cabeça que vive um casamento maravilhoso com o marido. Ela dá a essa mulher o nome de Jess e ao seu marido de Jason e fica sempre os observando com um misto de felicidade e inveja pelo que tem e ela acredita ser o amor verdadeiro que todos sonham. A terceira personagem é a nova esposa de Tom, Anna. Ela vive um casamento perfeito, com a filha perfeita na casa perfeita que a Rachel montou. Confesso que tive ódio de Anna por muito tempo durante a leitura. 

Enfim, em um determinado momento do livro uma dessas personagens some e você não sabe se ela viajou, fugiu, foi assassinada, se matou, enfim… E principalmente você não sabe quem fez algo pra ela ou com ela para que ela tenha sumido dessa forma e a partir daí é impossível parar de ler e não querer descobrir o final. Que diga-se de passagem, foi um desfecho ótimo.

“E se aquilo que procuro não puder ser encontrado? E se simplesmente não for possível?”

Li algumas resenhas em que as pessoas não curtiram o final e eu consigo entender o motivo, mas pra mim isso não mudou em nada a riqueza da narrativa dessa história fantástica. Amei a narrativa, adorei a construção das personagens, mas gostei principalmente do que esse livro traz de reflexão sobre a vida, sobre acontecimentos que achamos tão terríveis e que as vezes são nossa libertação de algo pior, e ainda mais importante que isso, uma reflexão sobre a natureza humana e como as aparências enganam e as pessoas nem sempre são aquilo que imaginamos.

Recomendo demais a leitura!!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
SERVIÇO
Blog: http://blogentreaspas.com
Instagram: @blog_entreaspas
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Resenha: Três Coroas Negras

Livro: Três Coroas Negras
Autora: Kendare Blake
Editora: Globo Alt
Páginas: 304
Nota: 3
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Três Coroas Negras conta a história de três irmãs gêmeas sombrias e herdeiras da coroa da Ilha de Fennbirn, nascidas com o único propósito de desenvolverem suas dádivas (poderes mágicos) até o dia da Aceleração, evento no qual, aos 16 anos, apresentam seus poderes e a batalha pela coroa começa.

“Na hora de Reinar, apenas uma restará”.

Cada uma delas é criada e treinada em lugares diferentes e são ensinadas a odiar suas irmãs para quando o Ano de Ascensão chegar, estarem prelparadas para matar pela Coroa.

Katherine é uma envenenadora que sabe criar os mais letais venenos, embora não seja tão imune aos venenos como deveria ser. Arsinoe é uma naturalista que pode controlar as feras mais terríveis, muito embora quase à beira de completar seus 16 anos ainda não tenha um Familiar (um animal que deveria controlar e see seu defensor por toda vida) e Mirabella é uma elementar que pode controlar o fogo, os ventos e criar tempestades.

Das três, Mirabella é a mais poderosa, sua dádiva se mostrou perfeita desde criança e ela tem o porte exato para ser A Rainha. Ela é a aposta certa para vencer enquanto as demais estão fadadas à morte certa, não fossem os pesadelos terríveis que Mirabella vem tendo e os questionamentos que vem se fazendo em relação a toda essa tradição sombria.

O livro tem várias reviravoltas e cenas surpreendentes. Tem os elementos necessários para uma trama extremamente emocionante, mas achei a narrativa um pouco fraca e muito pouco detalhada para um mundo fantástico que bem trabalhado seria extremamente primoroso. Ainda assim, é uma leitura gostosa e envolvente e obviamente vou precisar ler a sequência!!

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: Não Me Abandone Jamais – Kazuo Ishiguro

NUNCA MAIS ESQUECI!

“Quando a vi dançando aquele dia, enxerguei uma outra coisa. Enxerguei um novo mundo chegando muito rápido. Mais científico, mais eficiente, é verdade. Mais cura para as velhas doenças. Muito bem. Mas um mundo duro, um mundo cruel. E vi uma menina novinha, de olhos bem fechados segurando no colo o mundo antigo e bom de antes, o mundo que ela sabia, lá no fundo, que não poderia continuar existindo, e ela segurando esse mundo no colo e pedindo pra ele não deixá-la partir… Aquela cena me partiu o coração. Nunca mais esqueci”.

Eu vi o filme primeiro. Em 2010. Assim que foi lançado. Lembro de ter ficado olhando para a parede a minha frente uns bons minutos depois que o filme acabou sem saber o que fazer. Sem saber como é que se vive depois daquilo, de verdade. Uma cena específica do filme, acabou comigo e juro que não é spoiler, pode ler: estrada vazia, faróis ligados, Tommy desce do carro vai até a frente dos faróis e começa a berrar e berrar até que cai no chão e Kathy desce do carro e o abraça. Foi aí, nesse ponto que eu perdi minha alma. Eu sei que está parecendo dramático, mas é. É mesmo. O assunto é sério, é dramático, é atual e distópico ao mesmo tempo. Ele traz à tona muitos questionamentos e reflexões. E medos. O filme abriu um buraco que eu tinha que preencher com a leitura do livro que ainda não tinha no Brasil. Mas eu PRECISAVA DELE.

“Não consigo parar de pensar nesse rio, não sei onde, cujas águas se movem com uma velocidade impressionante. E nas duas pessoas dentro da água, tentando se segurar uma na outra, se agarrando o máximo que podem, mas no fim não dá mais. A corrente é muito forte. Eles precisam se soltar, se separar. É assim que eu acho que acontece com a gente. É uma pena, Kath, porque nós nos amamos a vida toda. Mas, no fim, não deu para ficarmos juntos para sempre.”

Quando finalmente consegui ler, me apaixonei ainda mais pelo tema e pela história. Se eu já tinha gostado do filme, o livro era (que surpresa, né gente? rs) ainda melhor. A escrita de Kazuo é delicada e começa tão branda, tão tranquila, como se fosse um diário de memórias de Kathy H. e você vai se apaixonando por ela, pela forma como ela vai se lembrando dos dias no instituto, da amizade, de Tommy, das relações, dos professores, das sensações. É como uma amiga que você faz ao longo da leitura, que te dá a mão e vai te levando por um passeio tranquilo e você vai se deixando levar.

Ao longo da leitura aparecem algumas palavras como doador, cuidadora e você fica se perguntando o que seriam exatamente essas coisas, mas a verdade chega de mansinho e acho que é isso que impacta ainda mais. Você não está preparado pra verdade quando ela chega. E é um soco no estômago, como diria tão bem Clarice Lispector (sobre outro assunto, mas cabe bem aqui).

“Certeza de que estão apaixonados? E como é que você sabe disso? Então acha que o amor é coisa assim tão simples?”

Quando você descobre o que é ser um doador, uma cuidadora, já é tarde demais. Você se envolveu tanto na narrativa, com os personagens, que não tem mais jeito de voltar atrás. E a agonia também é sua, aliás, mais sua. A apatia geral te dá desespero e você se vê querendo entrar lá e chacoalhar aquele mundo de pessoas que no fundo não querem ser chacoalhadas, que aceitaram de uma forma ou de outra um sistema tão bem amarrado, tão bem planejado que não há uma forma de escapar… Nem vontade.

Eu sei que o que estou escrevendo parece confuso, mas não posso escrever mais que isso sem sem estragar a experiência literária de quem for ler esse livro pela primeira vez. É, falando bem basicamente, uma história de amor e perdas, com um plano de fundo digno de uma ficção científica e uma distopia capaz de remexer com tudo dentro de você! A narrativa é misteriosa, você sente que algo precisa e vai ser revelado, mas nada te prepara o suficiente para a verdade.

“É como passar diante de um espelho pelo qual passamos todos os dias de nossas vidas e de repente perceber que ele reflete outra coisa, uma coisa estranha e perturbadora.”

Os próprios protagonistas só entendem completamente o que lhes acontece quando não há mais como voltar atrás. Qual o motivo de viverem no internato? Como foram escolhidos pra isso? O que o futuro guarda pra eles? Tudo isso vai ser respondido na narrativa extremamente bem construída de Ishiguro até a ultima página.

Fico na esperança de passar pra vocês o quanto esse livro me tocou, como pessoa. As sensações e reflexões que ele me trouxe como ser humano. O quanto isso não é tão distante de realidades que já vivenciamos em nosso planeta de outras formas, mas que estão aí e não enxergamos. Também estamos apáticos. E como eu adoro esse tipo de livro/filme que nos tira da zona de conforto e balança tudo que a gente tem por dentro!

“Porque em algum lugar, lá no fundo, uma parte de nós permaneceu igual: receosos do mundo em volta e — por mais que nos envergonhássemos disso — incapazes de deixar o outro partir de uma vez por todas.”

SUPER recomendo a leitura!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
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Resenha: Os Sete Maridos de Evelyn Hugo

Livro: Os Sete Maridos de Evelyn Hugo
Autora: Taylor Jenkins Reid
Editora: Paralela/Taglivros
Páginas: 412
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

“Eles são só maridos. A Evelyn Hugo sou eu”.
Mais uma vez, me vi atraída por um livro com meu nome na capa! Só esse mês, li 3 e acabei de comprar mais um na @taglivros! Bem, a motivação veio do nome na capa, mas a história toda me ganhou em vários pontos.

Evelyn Hugo é uma atriz famosa das décadas de 60-70-80, lindíssima, que ganhou um Oscar e aos 79 anos decide fazer um leilão beneficente às pesquisas do câncer de mama, pois acabou de perder sua filha para esta doença. A atriz entra em contato com uma revista, aparentemente para dar uma entrevista, e faz a exigência de falar somente com a jornalista Monique Grant. Monique trabalha a pouco tempo nessa revista, escreveu algumas poucas matérias e não entende o porquê da exigência da famosa, mas aceita. Quando chega para a entrevista, descobre que na verdade Evelyn quer que ela escreva a sua biografia onde pretende contar toda a verdade sobre sua vida.

A narrativa é super apaixonante, a autora aborda vários assuntos importantes ao longo da narrativa da vida de Evelyn Hugo e traz uma trama que te prende a ponto de não conseguir largar a leitura até saber de todos os detalhes e mistérios. É muito interessante saber a trajetória da garota pobre, cubana, mas intensamente ambiciosa que chegou a ser a atriz mais bem paga de Hollywood e conhecer todas as dores e as delícias do mundo do show business.

A começar pelo fato de ser mais conhecida pelos seus casamentos (inclusive o livro é dividido pelos nomes de seus 7 maridos) que por seu talento e história, são vários os momentos e situações que assuntos profundos são tratados nesta narrativa, como relacionamento abusivo, preconceito, o lado sujo e cruel da fama, e outros tantos que seria spoiler demais contar, mas que adorei verem retratados neste livro!

Recomendo muito a leitura, principalmente pela narrativa da autora. Adorei!

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: A Menina que Roubava Livros – Markus Zusak

É só uma pequena história, na verdade, sobre, entre outras coisas:
. uma menina
. algumas palavras
. um acordeonista
. uns alemães fanáticos
. um lutador judeu
. E uma porção de roubos
Vi três vezes a menina que roubava livros”.

 Esse livro quase desbancou o meu favorito “O morro dos ventos uivantes”. Ficou ali em segundo por um décimo! É perfeito, suave e trágico ao mesmo tempo!

“Quando a morte conta uma história, você deve parar para ler”. 

A história se passa nos anos entre 1939 e 1943, na época do Holocausto. Liesel Meminger encontrou a Morte neste período por três vezes e saiu viva das três ocasiões. A Morte, de tão impressionada, decidiu contar a história de Liesel e nos presenteou com esse livro mágico e encantador.

“Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber”.

Desde o início da vida de Liesel, ela precisou achar formas de se convencer do sentido de viver. Assistiu seu irmão morrer no colo da mãe e foi largada pela mesma aos cuidados de pessoas estranhas: Hans e Rosa Hubermann, um pintor desempregado e uma dona de casa rabugenta. Trazia escondido em sua mala, um livro: O Manual do Coveiro. O rapaz que enterrara seu irmão deixara o livro cair na neve por distração e este foi o primeiro dos vários livros que Liesel roubaria ao longo dos quatro anos seguintes.

“Uma definição não encontrada no dicionário: ‘Não ir embora’: Ato de confiança e amor, comumente decifrado pelas crianças”.

Foi essa paixão pelos livros somada ao amor das pessoas que foram colocadas em seu caminho que salvaram a vida de Liesel naquele tempo de horror, quando a Alemanha estava sendo transformada diariamente pela guerra. Seu gosto pelos livros e a sede por conhecimento foram o sentido que faltava em sua vida e em mais de uma ocasião a salvou da solidão, da tristeza e até mesmo da morte.

São inúmeros os momentos extremamente emocionantes desse livro onde a força do amor e a importância das palavras são extremamente ressaltados. A história deste livro mescla as descobertas e peripécias da menina Liesel de 9 anos e os riscos que a família corre quando Hans decide esconder um judeu, amigo seu, no porão de sua casa. Como testemunha desses acontecimentos, temos a Morte, a narradora dessa história que descreve cada situação com tamanha poesia e emoção que é impossível não se sentir parte da história, sofrer e sorrir ao mesmo tempo.

Impossível também é não se apegar aos personagens maravilhosos criados por Zusak. Ressalto meu imenso carinho por Hans e Rosa, os pais adotivos de Liesel e suas formas extraordinárias de demonstrar amor e por Rudy, melhor amigo de Liesel e o namorado que nunca teve.

Simplesmente inspirador, triste e maravilhoso. Leitura recomendadíssima.

Leitura mais do que recomendada, essencial! Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
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Resenha: O Lustre

Livro: O Lustre
Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 271
Nota: 3
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Pela primeira vez, a leitura de Clarice foi bastante desafiante pra mim. Talvez por não me sentir ligada à personagem principal, Virgínia, que me deixou bastante irritada em muitos momentos com sua passividade inicial e seus desmaios. Ao longo da história isso vai mudando e consegui uma fluidez maior na leitura, mas ainda assim não senti nem de longe o que costumo sentir ao ler os livros dessa autora maravilhosa que é a minha favorita da vida!

Esse romance foi escrito em 1946, logo após o lançamento de Perto do Coração Selvagem, que foi um sucesso absoluto. O Lustre não trouxe tantas críticas positivas como Clarice esperava e até questionou os amigos do porque não estava recebendo nenhuma devolutiva do livro, como recebeu do anterior. Alguns críticos julgam ele muito parecido com o primeiro que até então revolucionou e modernizou a forma de escrever, mas eu, particularmente não vi tamanha semelhança.

Clarice tem sim um jeito diferente de escrever, como um fluxo de consciência que acontece tão rápido como o nosso pensamento e as vezes nos deixa perdidos na cronologia da história (o que nem de longe impede a experiência literária, ao meu ver. Pelo contrário, a enriquece!), mas as histórias são bem diferentes e me identifiquei muito mais com Joana do que com Virgínia, que demorou demais pra encontrar a própria força e ainda assim demonstrava certa apatia e passividade em relação a alguns personagens e situações.

O lustre conta a história de Virgínia desde a sua infância em Granja Quieta até a vida solitária na cidade. O título remete ao Lustre da casa paterna no interior que a atraía e assustava quando pequena.

“Havia o lustre. A grande aranha escandecia. Olhava-o imóvel, inquieta, parecia pressentir uma vida terrível. Aquela existência de gelo”.

Pode-se fazer uma associação à vida que Virgínia viria a ter: terrível, isolada e sem afetos. Na infância, Virgínia nutre um amor e admiração sem limites pelo irmão com quem vive os dias em Granja Quieta. São muito unidos, porém Daniel, é perverso e cria uma “Sociedade das Sombras” que só tem os dois como membros e se utiliza do poder dessa sociedade para subjugar Virgínia as mais inoportunas situações, as quais ela obedece sem pestanejar.

Embora possa parecer desumano, não consegui nutrir uma compaixão pela protagonista, pois vamos descobrindo que a passividade não tem nenhuma ligação com bondade e que Virgínia também traz traços de maldade em si e por isso essa ligação doentia que se fez entre os dois. Quando crescem, se separam e Virgínia vai viver na cidade, e até se torna um pouco mais ativa, porém não se liberta das lembranças do passado que a atormentam a cada passo e acaba criando relações negativas com as pessoas e aumentando sua solidão. Muito me pareceu que a relação doentia criada com o irmão na infância fora o derradeiro de sua existência, mantendo-a sempre presa às lembranças.

Me parece impossível trazer uma impressão definitiva do que seja esse romance, tamanhas são as metáforas e a inconstância dessa obra. Ela abre diversas possibilidades de interpretação e acredito que atinja a cada um de uma forma diferente, de acordo com suas bagagens e experiências. Me foi MUITO difícil dar menos de 5 estrelas para Clarice, pois sou muito fã de sua genialidade de escrita e de suas obras, mas não podia deixar de ser sincera, como o sempre faço em todas as minhas resenhas, e infelizmente essa obra em específico, não me atingiu como todas as demais que li da autora.

Ainda assim, recomendo a leitura a todos aqueles que são fãs, para conhecerem todas as suas vertentes. Aos iniciantes, indicaria outras obras dela, como Uma Aprendizagem e o Livro dos Prazeres, Felicidade Clandestina e A descoberta do Mundo!