Resenha: Jardim Noturno

Livro: Jardim Noturno
Autor(a): Vinícius de Moraes
Editora:
 Companhia das Letras
Páginas: 160

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Vinícius é sem palavras. Sou apaixonada pelos seus sonetos e muitos dos seus poemas. Sua escrita é toda amor e sonho e suspiros. E como sou uma romântica inveterada, acabo me rendendo a todos os seus encantos, assim como muitas mulheres! Mas tenho que confessar que Jardim Noturno não foi tudo aquilo que esperei. É um ótimo livro, com lindos poemas (afinal é difícil ter algum livro do Vinícius que não seja bom), mas não é tão lindo quanto outros que li.

Destaco neste os poemas: “Eu nasci marcado pela paixão”, “Acontecimento” e “Versos Soltos do Mar” do qual quero compartilhar esse lindo trecho:

“Aqui jaz o mar. Nem ele mesmo
soube jamais o número de ondas
que desfez o seu sonho”.

Dos sonetos, gostei de “Soneto da desesperança” e “Soneto do Amor demais”. Leitura recomendada!

EVELYN

Não te acabarás, Evelyn.

As rochas que te viram são negras, entre espumas finas;
sobre elas giram lisas gaivotas delicadas,
e ao longe as águas verdes revolvem seus jardins de vidro.

Não te acabarás, Evelyn.

Guardei o vento que tocava
a harpa dos teus cabelos verticais,
e teus olhos estão aqui, e são conchas brancas,
docemente fechados, como se vê nas estátuas.

Guardei teu lábio de coral róseo
e teus dedos de coral branco.
E estás para sempre, como naquele dia,
comendo, vagarosa, fibras elásticas de crustáceos,
mirando a tarde e o silêncio
e a espuma que te orvalhava os pés.

Não te acabarás, Evelyn.

Eu te farei aparecer entre as escarpas,
sereia serena,
e os que te viram procurarão por ti
que eras tão bela e nem falaste.

Evelyn! – disseram-me,
apontando-te entre as barcas.
E eras igual a meu destino:

Evelyn – entre a água e o céu.
Evelyn – entre a água e a terra.
Evelyn – sozinha –
entre os homens e Deus.”

. Cecília Meireles in Mar Absoluto, Retrato Natural .

14.03 [18] – Dia Nacional da Poesia

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A contagem de tempo
do poeta
não é a do relógio
nem a da folhinha.
É amadurecer de poemas
a envolvê-lo e tirar-lhe
toda marca de tempo
de folhinha
e relógio
e a situá-lo
na franja além do tempo
onde paira o sentido
a razão última das coisas
imersas de poesia”.

. Carlos Drummond de Andrade in A Abgar Renault .

XXVI

O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos.
Esquecidos…
Enganados…
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor…”

. Cecília Meireles in Cânticos .

08.03 [18] – Dia Internacional da Mulher

“Todas nós seguimos em frente quando
percebemos como são fortes
e admiráveis as mulheres
à nossa volta

. Rupi Kaur in Outros Jeitos de Usar a Boca .

Resenha: Antologia Poética – Cecília Meireles

Livro: Antologia Poética: Cecília Meireles
Autor(a): Cecília Meireles
Editora:
 Nova Fronteira
Páginas: 307

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Confesso, com certa vergonha, que tinha me esquecido de como Cecília Meireles é maravilhosa. Há muitos anos não lia nada dela, e acabei por negligenciar uma leitura simplesmente encantadora. Conheci Cecília cedo, aos 14 anos e foi na mesma época em que me encantei por Vinícius de Moraes, Castro Alves, Carlos Drummond, Álvares de Azevedo, dentre tantos outros. Cecília se destacou e lembro de ter comprado o livro “Mar absoluto, Retrato Natural” ainda muito jovem, já com a necessidade de ter um registro de meus poemas favoritos onde pudesse buscar alento. Não o fiz tanto quanto imaginava e me arrependo. Por isso quando essa antologia caiu em minhas mãos, não tive dúvidas de que teria de lê-la. Muitas das poesias eu já conhecia, mas adorei reler e relembrar. Gostei ainda mais quando soube que esta foi a única coletânea de Cecília cujos textos foram escolhidos pela própria autora. Desta forma, não há como discutir a ótima seleção de seus trabalhos que desfilam uma linguagem musical, com temas abrangentes e diversos. Poderia destacar muitos favoritos, mas acredito ser mais fácil citar os únicos que menos me encantam, que é o caso do registro histórico de seu consagrado ‘Romanceiro da Inconfidência’. Apesar de ser um texto extremamente valoroso e cultural, não toca o meu coração como muitos outros, dentre eles Elegia, que acredito ser um dos mais lindos textos da autora. Também destaco Sugestão, Explicação, e Canção Excêntrica do qual gostaria de compartilhar um trecho:

“Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida”.

Leitura recomendada!

Resenha: Memórias Inventadas

Livro: Memórias Inventadas: as infâncias de Manoel de Barros.
Autor(a): Manoel de Barros
Editora:
 Planeta do Brasil
Páginas: 160

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Lindo e encantador!
“Tudo que não invento é falso”.

Este livro é todo beleza e poesia: a escolha do papel para impressão, a capa, as iluminuras do interior feitas pela filha do autor, Martha Barros, e que são encantadoras entre as belíssimas palavras de seu pai, enfim, todos os detalhes mostram o amor pelas palavras e o cuidado em publicar com qualidade.

O livro começa com a explicação do autor de que não era uma criança peralta:

“Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba, mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão”.

E desde que a palavra solidão foi escrita nesta primeira explicação, não largou mais as palavras de Manoel e acompanhou-o em todas as demais páginas deste livro, que em minha opnião é de uma sensibilidade incrível e emocionante. São inúmeras lembranças infantis que muitos de nós compartilhamos (alguns não, principalmente nos dias de hoje) e que nos aproxima do autor. A maneira gostosa com que Manoel de Barros brinca com as palavras, encanta e admira. Foram inúmeras as citações que separei para guardar, mas de todas esta foi a que mais me emocionou:

“Agente só descobre isso depois de grande(…). Que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor”.

Leitura super recomendada!